Jornalista André Piunti reúne gerações do sertanejo em projeto de regravações
- Guilherme Moro

- há 17 minutos
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Em um estúdio, madrugada adentro, um dos últimos artistas a gravar uma sessions musical chega apressado, depois da meia-noite. Enlutado, ele saiu de sua casa em Cotia tarde da noite para atender ao pedido de um jornalista. A cena poderia parecer improvável em meio à rotina acelerada da indústria musical e do distânciamento entre a imprensa e os artistas. Mas ajuda a explicar o tamanho do projeto Piunti Sessions e a relevância do jornalista André Piunti dentro da música sertaneja. Com cerca de 100 gravações previstas e lançamento distribuído ao longo de meses, a iniciativa se aproxima de um marco na trajetória de Piunti, que construiu sua reputação ao longo de quase duas décadas documentando a história da música sertaneja, primeiro por meio de seu site, o Universo Sertanejo, depois nas ondas da Nativa FM, posteriormente em especiais envolvendo o gênero musical na TV Globo. A proposta mira um espaço pouco explorado na discografia do gênero: o resgate de repertórios menos conhecidos, os chamados “lados B”, com o intuito de fugir das regravações mais comuns. Entre os artistas que participaram estão Zezé Di Camargo, Michel Teló, Maiara & Maraísa, Matogrosso & Mathias, Rio Negro & Solimões, Renato Teixeira, Léo Magalhães, Luan Pereira e muito mais.
“A ideia do projeto também era ter artistas de todas as gerações que cantam estilos dentro do sertanejo totalmente diferentes. A ideia era mostrar que o sertanejo é algo muito grande, inclusive com várias vertentes diferentes. Tudo está dentro de um grande negócio chamado música sertaneja. Gravamos em fevereiro porque, depois que passa o carnaval, principalmente em março, começam as festas e fica muito inviável você conseguir datas de tantos artistas”, explica Piunti.

O artista citado no primeiro parágrafo deste texto é Moacyr Franco, que no auge dos seus 89 anos, participou da interpretação de uma das faixas do projeto, que ainda não teve repertório revelado.
“Apesar de ele estar mais quieto por conta de um projeto grande que ele está fazendo. Ele falou: ‘Eu vou’. Só que ele teve um problema com uma pessoa muito próxima que faleceu dois dias antes da nossa gravação.
O empresário dele falou que possivelmente ele não daria conta, porque era uma pessoa muito próxima dele. E ele acabou vindo aqui no último dia de gravação, que foi uma quinta-feira. Ele ligou no final da tarde e falou: ‘Dá tempo de eu ir ainda?’. Eu falei: ‘Dá’. Ele foi o último a gravar na quinta-feira. Ele saiu da casa dele meia-noite para chegar uma e pouco da manhã no estúdio e gravar", contou.
Foco no “lado B”
Enquanto a indústria vive uma onda de projetos baseados em releituras de clássicos populares, Piunti decidiu seguir um caminho menos previsível de revisitar repertórios esquecidos. O intuito não é tentar viralizar algumas dessas faixas selecionadas, mas sim traze-las à tona como curadoria.
“A ideia do lado B era a gente focar tanto músicas, porque hoje a gente está acostumado com vários projetos de regravação. A gente não queria concorrer com os próprios artistas, ficar regravando música que todo mundo está regravando ou um perfil de música que o pessoal está regravando. Então a gente tentou buscar lado B mesmo, voltar mais no tempo, puxar coisas que muita gente não conheceu. Acho que em 80% dos casos nós conseguimos fazer bem fiel ao que a gente queria no começo".

Credibilidade construída em quase duas décadas
Para Piunti, reunir um elenco numeroso de artistas de diferentes gerações não foi apenas resultado da visibilidade de seu canal ou do alcance nas redes. Ele atribui a adesão ao trabalho de longo prazo como jornalista cultural especializado no gênero.
“Sobre o jornalismo musical e as vertentes, acho que é o assunto que eu mais penso para conseguir ter uma ideia mais clara. Não é uma resposta que eu tenho para de forma muito clara, de como conseguir fazer isso. Mas eu acho que é uma construção de muito tempo trabalhando com isso e sendo uma pessoa que escolheu defender a música ao longo do tempo, nos trabalhos que fez. Não defender especificamente o artista de forma geral, mas defender a música, defender o meio e defender — não digo brigando ou escrevendo coisas a favor — mas cobrindo de forma correta, sendo um divulgador da história de verdade.
Um projeto pensado para durar
Além da proposta estética e histórica, o projeto também foi estruturado com lógica de mercado. Inspirado em formatos internacionais e no crescimento das chamadas “sessions”, como o Tiny Desk, o programa Cultura Livre e demais com formato similar, o lançamento será diluído ao longo de meses.
“É um formato inédito para o sertanejo. Eu assisto sempre o Tiny Desk, acompanhei todo o processo de lançamento dele aqui. Eu acho que o potencial mercadológico acaba sendo maior do que outros projetos que são conhecidos, por conta do estilo musical, que é o mais popular que a gente tem, de maior alcance, com número de ouvintes, com público mais variado, ouvido em mais regiões. Então a gente sabe que tem um potencial muito grande. Mas a gente, nesse momento, está pensando em duas por semana. Então nós vamos ter até o ano que vem de lançamento", finalizou.



