• Guilherme Moro

Entrevista: Fábio Brasil, baterista do Detonautas, produtor e apresentador

Nascido no Rio de Janeiro em maio de 1972 e apaixonado por discos e rádio das décadas de 70 e 80, Fábio Brasil começou a fazer aulas de bateria em 1984. No final da década de 90, Fábio Brasil entrou para o Detonautas, quando gravaram o primeiro disco de forma independente comprado em seguida pela Warner Music. Em 2011, o Detonautas tocou no palco Mundo Rock in Rio e em 2013 no palco Sunset, fazendo um inesquecível tributo a Raul Seixas. Fábio criou o estúdio Mobilia Space, em seguida o selo homônimo, além do programa no canal Music Box Brasil, Mobilia Sessions.



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O “Álbum Laranja” é o mais recente trabalho da banda. Como foi a elaboração deste projeto e, principalmente, lançar um disco no meio de uma pandemia?


Fábio Brasil

O processo desse disco foi fluindo com o tempo. Nós estávamos numa fase muito positiva da banda, fazendo um grande projeto pra Sony, quando a gente foi obrigado a parar os ensaios para essa gravação devido à pandemia. Era uma sequência de 30 ensaios e quando estávamos no oitavo, infelizmente tivemos que parar. Foi no meio do negócio mesmo. Nós partimos pro trabalho online. Nós estávamos com esse lado da criatividade muito aflorado e seria uma coisa muito difícil parar de tocar naquele momento, porque a banda estava muito firme. A gente aproveitou essa pausa pra fazer um disco. Criamos 10 ou 11 músicas em um mês. Devido ao momento de incertezas e adaptação ao "novo normal" e vendo as atrocidades que estavam acontecendo no país, as narrativas irresponsáveis, com a doença sendo tratada como uma coisa ideológica. O disco é uma crônica do atual momento do Brasil. Ele representa isso e foi acontecendo durante o processo todo. Ele já foi lançado com 3 milhões e 500 mil streamings. Esse disco veio pra provar que não adianta você falar pra poucos lugares quando você tem uma voz representativa e se insere no contexto de um país.


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Você é o principal baterista da história do Detonautas e pode falar com propriedade sobre a discografia da banda. Quais são as maiores diferenças deste disco para os outros lançados?


Fábio Brasil

O Detonautas nunca foi uma banda que surfou na onda do disco anterior. Esse caminho seria muito fácil, uma coisa que outras bandas fariam. Nós nunca nos propomos a fazer um disco igual ao outro. A diferença é que nesse disco eu consegui gravar aqui no meu estúdio, onde eu trabalho o dia inteiro. Eu usei essa estrutura pra gravar minha bateria. Foi muito confortável, eu já tinha o som que eu queria, todas as caixas que eu queria usar em termos de som. Cada disco tem uma fase. Nós somos muito representativos com a nossa vivência em relação aos discos. Esse é um disco que a gente não quis só falar de coisas da vida e outras coisas que sempre falamos. Nós somos uma banda que tem acima de tudo fazer o bem. É um disco que o compromisso foi outro, mas continua sendo 100% Detonautas.


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O clipe de “Carta ao Futuro” traz uma atmosfera minimalista e conceitual. De que maneira isso foi elaborado e qual a importância do recado que essa música passa em momentos tão difíceis.


Fábio Brasil

“Carta ao Futuro” veio nesse processo de compor pela internet. Deu muito certo pra banda. O clipe retrata com muito bom gosto toda essa experiência negacionista que a gente tá vivendo, essa tamanha ignorância e adesão à burrice. Ao orgulho de ser burro e ser tapado, né? A gente precisa deixar bem claro esse momento da história que estamos vivendo. Esse obscurantismo que mata as pessoas, que prega o armamentismo e a gente não sabe nem onde o dinheiro dessa gente vai parar. É uma coisa de muita responsabilidade. Esse clipe foi produzido pela Foral, que é uma produtora nova que o filho do Tico está começando os seus trabalhos artísticos com essa galera. Foi uma oportunidade muito bacana que a banda deu à eles de apresentar um trabalho. Eles conseguiram fazer toda a produção e figurino. São imagens que tratam toda essa obscuridade e está muito bem representado.



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Mobília Space é o nome do seu estúdio, onde realiza suas produções e grava o seu programa homônimo para o canal Music Box Brasil. De onde veio essa oportunidade de ser um apresentador e como foi elaborado o seu estúdio?


Fábio Brasil

Eu criei o Mobília Space há muito tempo na minha cabeça. Foi antes de descobrir o Detonautas e de fazer sucesso. Eu fui criado no subúrbio do Rio de Janeiro e por volta de 1994 ou 1995 eu já tocava em algumas bandas underground no Garage e no Circo Voador. Eu, tentando sobreviver de música, vendi tudo que eu tinha e montei um estúdio bem pequeno no meu quarto, comprei quatro microfones, vendi um carro com os documentos todos atrasados, enfim, vendi tudo que eu tinha. Por ser um estúdio dentro de casa eu, lembrando do Mobile Studios, dos Stones, pensei em Mobília Estúdios (risos). Assim foi. Quando eu descobri o Detonautas em 2000, nós lançamos o primeiro disco e fizemos uma agenda de trabalho intensa. Mudei de casa, mas o estúdio me acompanhou. Com o sucesso das turnês e tudo mais que fizemos, eu consegui fazer um estúdio grandão. O Space veio da época da rede social MySpace, né? Eu achava que somente o Mobília não era suficiente. O estúdio tem um ar espacial, meio retrô. Hoje ele é um estúdio profissional de gravação. Já produzi aqui Celso Blues Boys, MV Bill, produzo para Globo, Record e muitas outras pessoas. Quando a gente começou, a ideia era fazer um material para as bandas divulgarem o seu trabalho. Foi daí que nasceu o programa.



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Graças ao estúdio, você desenvolveu muito seu lado como produtor musical. De que maneira isso foi se desenvolvendo?


Fábio Brasil

Essa coisa de produtor musical foi acontecendo muito por conta de gostar de música e conviver num ambiente de trabalho onde você está criando algo que não existe, né? É uma grande responsabilidade. Tem muita coisa envolvida. É o seu trabalho e gosto musical envolvido junto com o de outras bandas. É sempre bom gravar, acho maravilhoso. O trabalho de produtor é uma coisa muito de confiança. O artista sempre espera que a gente agregue num som. São coisas que a gente vai aprendendo com os outros. A música não é uma ciência exata, é percepção. Eu adoro fazer o que eu faço e fico muito feliz com o trabalho que a gente tá fazendo aqui hoje.


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Em entrevista ao nosso blog, Renato (guitarrista) e Tico (vocalista) comentaram sobre um álbum pronto para ser lançado. Há previsão de lançamento para esse trabalho?


Fábio Brasil

Esse álbum está pronto desde abril do ano passado. A gente está remixando ele agora. É um disco muito bonito. As pessoas dizem que agora somos uma banda política, que gostavam mais da época do nosso acústico, mas isso remete à aquela resposta que eu dei lá atrás que a gente não sente prazer e repetir o álbum e sons. A gente gosta de seguir as ondas dos nossos corações. O disco tem canções muito bonitas, que falam sobre luz, compaixão e empatia. O Brasil está precisando disso. Está na hora certa de lançar esse disco.


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O Detonautas foi uma das bandas que mais fizeram barulho e denunciaram as atrocidades cometidas pelo Governo Federal, durante este período de pandemia. Em quais aspectos isso atrapalhou e agregou na carreira da banda?


Fábio Brasil

As pessoas hoje em dia já sabem como é o Detonautas. Quem gosta do Detonautas, gosta pelo que ele é, pelo o que ele representa, as ideias, atitudes. Quem gosta, gosta e quem não gosta, só lamento. Gostando ou não gostando, tocando ou não tocando, a gente sempre achou o nosso espaço, porque nós não somos uma banda que fica no quarto falando mal dos outros pela internet. A gente é uma banda que vai pra estrada e vai viver a vida. Aqui ninguém é criança e está brincando de ser banda. Ela representa muito na vida da gente. O Detonautas é necessário no país. A gente sempre falou desses assuntos, as pessoas que não tinham percebido. A gente dorme em paz e conversa com nosso público. As pessoas vão ao nosso show e saem se sentindo bem pelo poder que ele tem. O nosso show foi escolhido um dos melhores do Rock In Rio de 2019.


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Você tem contato direto com novos artistas e bandas. Na sua opinião, o rock está se renovando?


Fábio Brasil

Rapaz, eu acho que o rock não está se renovando não. Eu não descobri nada novo e não sei, parece que a galera perdeu a mão de fazer rock. O que nas décadas de 80 e 90 tinha de maravilhoso, hoje está totalmente sem força. Espaço tem e hoje com os streamings está tudo pulverizado e cabe a cada um investir o tempo e o dinheiro para chegar nas pessoas. Acho que está mais nesse sentido a novidade do que na atitude rock and roll e sonoridade. Acho que essa banda aí ta guardada na garagem. Lá fora tá rolando o “Efeito Maneskin”. Quem tá sabendo muito bem fazer essa divulgação hoje é a galera do RAP, que é uma geração do computador, não da guitarra, do baixo e da bateria. O popular tomou conta do país e cabe a nós ser a resistência. O negócio é que ninguém tá unido também, a galera só quer sugar e dar opinião. Opinião é de graça, beleza, mas não se vive só disso.


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Está rolando uma reabertura do mercado de shows, após o aumento da porcentagem da população que está vacinada. Vocês pensam em fazer shows ainda neste ano?


Fábio Brasil

O Juca, nosso empresário, nos disse que o mercado começou a se movimentar. Creio que em novembro a gente já está pronto pra fazer show. Agora começamos de novo as atividades. Pode ser que pinte alguma coisa num formato acústico. Eu vou fazer alguns shows com o Fernando Magalhães (Barão Vermelho), em homenagem aos 40 anos do rock nacional. É quase como uma reestreia aos palcos. Eu tô me preparando fisicamente há um tempão pra não deixar cair. O Tico e o Renato também estão se cuidando, então é coisa de um mês pra gente voltar a fazer os shows.