• Guilherme Moro

Entrevista com Alexandre Cavalo, Guitarrista e Fundador do Velhas Virgens

Velhas Virgens é uma das bandas mais emblemáticas do cenário independente do Brasil. Com 35 anos de carreira, a trupe lançou no fim de 2020 o álbum "O Bar Me Chama", com uma proposta mais madura e diferente dos demais trabalhos. Alexandre Cavalo, fundador e guitarrista do grupo, falou sobre esse momento vivido por eles e comentou sobre como a banda teve que se reinventar nos últimos dez anos.

Alexandre Cavalo em apresentação no Estúdio Showlivre


Blog Música Boa

O novo álbum “O Bar Me Chama” foi gravado em meio às dificuldades impostas pela pandemia. Como o processo de criação desse disco se diferenciou dos demais da carreira da banda, levando em consideração o aspecto emocional e criativo?


Alexandre Cavalo

Na realidade o problema foi o lançamento. Imagina: nós emendamos uma turnê de lançamento atrás da outra desde 1997 e agora temos que lançar um disco sem o apoio dos shows, que eram nosso principal produto de divulgação. Devo dizer que, para mim, foi muito difícil aceitar essa nova situação, porém a vida tinha que continuar e planejamos tudo de maneira diferente. Fizemos vários clipes, cada um na sua casa, para divulgação, pensamos em ações para a participação do público, fizemos um clipe chamado “O Poder do Brinde”, em que os fãs mandavam vídeos de brindes e editamos num clipe com música nova, lançamos vários singles do disco novo, inclusive um com a participação da banda Terra Celta. Enfim, mudamos nosso jeito de trabalhar a música e a marca da banda.

Foi muito complicado não ter shows e esse o contato com o público. A gente se acostumou a ter uma agenda de shows de janeiro a janeiro. Nos momentos em que poderíamos parar, a gente faz o “Carnavelhas” e temos nosso bloco de carnaval. Por outro lado, trabalhamos a marca da banda desenvolvendo mais rapidamente uma coisa que a gente vem fazendo desde 2010, que é uma mudança de determinadas atitudes. O mundo muda e a gente também. Coisas que eram normais nos anos 80 e 90 hoje são inaceitáveis e a gente sabe disso. Estamos tentando melhorar. Nesse sentido a banda ganhou um novo rumo e uma vida nova. Esse disco resume bem essa fase boa que estamos vivendo como artistas. A crítica tem sido ótima, não é uma coisa que estamos acostumados. O público curtiu muito o disco e crescemos em todas as plataformas digitais por conta dele.


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Para vocês, qual a principal faixa desse disco e por que ela se destaca das demais?


Alexandre Cavalo

Acredito que “O Bar me Chama” seja emblemática. Ali está um blues simples, mas bem arranjado, com naipe de metais e coros bonitos, remetendo a BB King e Eric Clapton, com refrão pegajoso. Também gosto de “Brechó Cintilante”: é a História de um bar que mora no inconsciente das pessoas e que só aparece em momentos especiais. É difícil falar de uma ou duas, esse disco foi pensado para ser tocado inteiro no show, então não existe música para compor repertório. Todas tinham que ter sua vida própria. Acabei por gostar de tudo.


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A banda tem uma legião de fãs extremamente fiéis que acompanham todo e qualquer lançamento feito por vocês. Como está sendo a repercussão de “O Bar Me Chama” e de que maneira a falta dos shows de lançamento para um novo álbum atrapalham na divulgação do mesmo?


Alexandre Cavalo

A falta de shows atrapalha muito a divulgação. Somos, desde sempre, uma banda de palco e é lá que as músicas crescem. Mesmo assim a repercussão do disco foi uma grata surpresa, tanto do público quanto da crítica. Estamos muito felizes com o resultado e esperamos poder fazer uma turnê para mostrar essas músicas para nossos fãs.


Foto: (Divulgação)


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A banda foi formada em 1986, quando ainda fazia parte do circuito underground paulistano. Como surgiu a ideia de criar a banda e de onde veio a inspiração para o nome?


Alexandre Cavalo

O nome é do último filme do Mazzaropi. Aliás, fazemos uma homenagem a ele no disco novo com “Mazzaropi Blues”. O filme se chamava “A Banda das Velhas Virgens” e quando o Paulão me falou isso eu achei que era o nome perfeito e assim ficou. “Velhas Virgens” remete a uma coisa que é experiente sem deixar de ser inocente. Tem muito do espírito da banda nisso.


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Voltando a falar de “O Bar Me Chama”, como surgiu a ideia de fazer uma homenagem ao rock setentista no repertório desse álbum e, de que maneira vocês fizeram isso sem fugir das principais raízes musicais da banda?


Alexandre Cavalo

Isso foi ideia do Paulão. Ele pensou num show todo setentista, inclusive os covers escolhidos. Creio que conseguimos fazer isso sem fugir do nosso estilo. Fomos buscar em referências como Stones, os discos de blues dos anos 70 do BB King, Clapton, Cream, Lynyrd Skynyrd, Bowie e tantos outros artistas maravilhosos dos anos 70. Há mudanças de clima e de harmonia para solos, entradas inusitadas e uma infinidade de detalhes de instrumentos e timbres. Montar os arranjos das músicas foi um processo trabalhoso e divertido. Usamos praticamente tudo do jeito que foi ensaiado. Um lance pra soar muito orgânico.


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O Velhas é uma das bandas mais tradicionais do rock independente do Brasil. Quais os maiores prós e contras de ser um artista independente?


Alexandre Cavalo

Sempre digo que ser independente é depender de um monte de gente. Tem que ter parcerias, tem que abrir para participações, tem que convidar mais gente para sua festa, enfim, tem que agregar. Mas também é ter total autonomia de tocar sua própria carreira. Isso não te isenta de ouvir e pensar sobre críticas. A gente sempre recebeu muitas. O segredo está em filtrar o que é realmente importante e que vai fazer diferença. Crescer e se desenvolver como artista não é trabalho fácil nem instantâneo. Acredito que a grande desvantagem é a falta de investimento e de ter uma organização ajudando nos projetos. Isso encurta muitos caminhos, mas você tem que ter muita consciência do que quer pra não se deixar envolver e se dissolver.


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Dentre todos os álbuns lançados pela banda, qual vocês consideram o mais icônico?


Alexandre Cavalo

Acho que o álbum que mudou nosso jeito de pensar e que foi também a turnê mais bem sucedida é o “Ninguém Beija Como as Lésbicas”, de 2010, juntamente como CARNAVELHAS 2, que saiu logo em seguida.


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Em tempos em que o politicamente correto é predominante em algumas áreas da sociedade, algumas músicas da banda podem causar revolta em determinados grupos. Vocês sofrem ataques de pessoas que não entendem a mensagem de diversão que a banda passa?


Alexandre Cavalo

Acho que o politicamente correto veio em boa hora e como tudo tem que saber filtrar o que é importante. Cada época tem suas mudanças e a sociedade como um todo tem que se adaptar. Passamos por vários momentos de mudanças sociais e tentamos acompanhar isso. Se você ouvir os discos em ordem, vai entender bem o que eu estou falando. Começamos em meados dos anos 80, pegamos a transição entre a censura e a abertura. Era uma época em que a gente queria falar o que desse na telha, uma ânsia de liberdade. Depois isso foi sendo reconsiderado, o que acho muito natural. Certas músicas que fizemos no século passado não seriam feitas hoje e ouvindo os discos na ordem cronológica dá para perceber como a banda acompanha essa evolução. Assuntos foram sendo discutidos e a gente foi aprendendo sobre machismo, feminismo, alcoolismo, racismo e tantos outros ismos. Diferente do que possam acreditar, a gente pensa sobre tudo isso e conversamos, pesquisamos e isso acabou nos movendo para outros caminhos. Mas pra que as pessoas possam entender melhor esse “andar do bêbado”, (falo isso pois não é um caminhar linear), tem que ter um pouco de paciência para ouvir as músicas e não ficar batendo na mesma tecla de coisas do século passado. Não podemos nem queremos mudar o passado. Isso é um retrato de uma época e nós consideramos um pouco cronistas dela, mas podemos fazer coisas no futuro que sejam diferentes mas que mantenham nossa estética musical. Falei demais, esse é um assunto de uma tese. Acredito que nosso novo disco venha coroar os nossos esforços de tentarmos uma mudança de linguagem sem perder nossas características de colocar o dedo na ferida da hipocrisia social de forma bem humorada e divertida. No entanto, apelar para clichês já usados e que sabemos que não funcionam mais.


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Para encerrar, qual o maior legado que o Velhas Virgens pretende deixar para o cenário do rock independente?


Alexandre Cavalo

Acho que estamos longe de deixar um legado, porque não temos planos de parar tão cedo, mas se for pra escolher, eu digo que vamos deixar boas músicas, um jeito muito pessoal de encarar a carreira de artista e milhares de litros de cerveja consumida, uma coisa que também quero fazer por muito tempo ainda!



*Essa entrevista teve colaboração de Eruan Galhardo