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Um arranjo gostoso de Zé Ibarra

  • Foto do escritor: Julia Burian
    Julia Burian
  • há 2 horas
  • 5 min de leitura

Existem algumas experiências que te relembram como é gostoso viver. O show de Zé Ibarra da Afim Tour com certeza entra nesta lista felizarda. No último sábado (25/04), tive o prazer de estrear uma performance do ex-Bala Desejo no Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto, com o adendo que fez amolecer até o mais crítico musicófilo: a banda, pela primeira vez, estava completa. E sim, isso foi um diferencial que falaremos mais à frente.


Se, no alto do palco, Zé Ibarra conquista pela presença e talento, fora, encanta pela delicadeza e sagacidade das palavras. No decorrer da entrevista, o compositor e multi-instrumentista revelou detalhes sobre seus projetos, inspirações e até se existe a possibilidade de um remember com seu antigo grupo, Bala Desejo.


Foto: @maribluum
Foto: @maribluum

Retrato de uma ascensão

Este show consagrou a terceira vinda do artista a Ribeirão Preto nos últimos seis meses. Perguntado sobre como é viver essa experiência, Zé relatou as diferenças de cada show.


“Tá sendo interessante porque a primeira vez eu vim, foi dentro do festival, numa sala menor, com banda muito pequena, muito menor do que eu tenho feito. Aí depois eu vim para o Sesc, que foi um pouquinho maior. E agora, de fato, com a banda que eu concebi com os arranjos e com o teatro que também me dá permissão para fazer o show que eu pensei, que é o Afim Ao Vivo. Que foi um show mais pensado para teatro, do que para o festival”, explicou.


O intérprete de “Segredo” também viveu um momento simbólico nas últimas semanas. Dois dias antes de Ribeirão, o cantor celebrou sua maior bilheteria no Cine Jóia, em São Paulo. Para nós, contou um pouco sobre essa concretização.


“Como artista é muito bom, cara, porque dá uma alegria, dá uma tranquilidade. Você sobe no palco se sentindo querido. E tem um momento da carreira que a gente fica tentando se fazer ser querido, né? A gente fica tentando seduzir as pessoas para que elas gostem da gente. E aí tem uma onda de carreira, que é o que tá acontecendo comigo agora, que você começa a poder parar de tentar ser alguma coisa, só ser”.


Afim Tour desbrava Velho Continente

Maio não será somente mês das noivas. O ciclo também marca o início da jornada de Zé pela Europa. Afim Tour passará por 12 países, como Inglaterra, França e Espanha, ao longo de 22 datas.


No entanto, após mergulhar na energia latina que corre nas veias brasileiras, será que existe uma diferença na recepção do público em terras estrangeiras?


“Existe. Existe o público europeu, tipo brasileiro da Europa, que também é um público interessante, que é um público nostálgico, então um público que quer ver aquilo para se lembrar do da sua terra, que é maneiro, que você vê a emoção da pessoas e ouvir as harmonias, as melodias, as letras”.


O clima de entusiasmo não muda para os ouvintes internacionais. “Mas tem o ouvido estrangeiro, né, que também é diferente. Mas tem uma coisa que eu tenho muita pretensão assim, boa e vontade de sempre habitar, que é fazer uma música que seja universal. Que comunique com qualquer pessoa no planeta”, refletiu.


O cantor ainda pondera sobre como a música popular brasileira se concebe a partir de uma miscigenação de sonoridade, o que facilita no alcance. “Então, é uma música que realmente é uma música brasileira, mas que pertence ao mundo inteiro, assim, todo mundo assimila, todo mundo entende. Por mais que não esteja entendendo nada do que está falando”.


Foto: @maribluum
Foto: @maribluum

Vai atrás de projetos, que eles te esperam

E Zé Ibarra não para. Em um álbum tributo a um dos precursores da Bossa Nova, Henri Salvador, o cantor se junta a grandes nomes, como Seu Jorge, Zélia Duncan e Simone, para celebrar a herança musical do cantor francês no projeto idealizado por Emmanuel de Ryckel.


“Cara, foi um convite do Emmanuel, mas para cantar releituras do Henri Salvador. Bem no momento que eu estava viciado no Henri Salvador, então foi meio maluco, porque eu descobri Henri Salvador dois anos atrás. Fiquei completamente alucinado ouvindo todos os dias e aí chegou um francês para me chamar para fazer o álbum tributo a ele”.


O cantor fará sua própria versão de “Le wagon”, parceria entre Henri Salvador e Bernard Latimier lançada em 1972. “Foi incrível assim, olha que louco. Fui fazer, escolhi uma canção, gravei, foi tão poderoso, foi tão bom fazer, ficou tão foda a gravação que vai virar o símbolo do projeto. E me impactou tanto que eu fiz uma versão em português para a música que tá dentro do meu próximo disco”.


No tributo fonográfico, também estará presente a ex-Bala Desejo, Dora Morelenbaum, para embalar a reinterpretação de “Et des mandolines”, canção de 1974.


Futuro livre…por Bala Desejo

Se tem uma coisa que é certa, é a esperança dos fãs sobre uma possível colaboração entre os ex-integrantes do Bala Desejo. Criado em 2021, o quarteto harmônico dividia o tropicalismo contemporâneo entre os talentos de Zé Ibarra, Dora Morelenbaum, Julia Mestre e Lucas Nunes.

O arranjo gostoso e essencialmente brasileiro conquistou não só os amantes de MPB, como garantiu um Grammy Latino no armário com o álbum de estreia Sim Sim Sim no ano de 2022. Em 2024, os membros do grupo decidiram prosseguir com seus projetos solo. Mas isso pode não significar o fim do que é Bala Desejo.


“Eu adoro Bala Desejo, eu acho uma onda absurda assim, eu amo tocar com a galera e todo mundo adora também. O público é uma viagem que nos traz. Porque é muito louco, a gente lançou um disco e mudou a vida de todo mundo, né? Um disco sem clipe, sem nada. Spotify, entendeu? Streaming. Então, foi um acontecimento. Se voltar vai ser legal. Eu vou, se eles quiserem eu tô dentro, mas tem que tá todo mundo junto”.


No entanto, apesar das pretensões, o cantor reflete que esse futuro pode estar um pouco distante. “E acho, nesse sentido, não por causa de problemas, mas eu acho difícil a conjuntura voltar a alinhar os astros, entendeu? Para que a gente se sinta simplesmente na espontaneidade de voltar a fazer alguma coisa. Eu adoraria e eles também falam que adorariam. Mas está todo mundo tão focado, que parece que, por agora, vai demorar ainda para rolar qualquer coisa”.



Esse show é todo seu

Que faça barulho e chame a atenção. A aura setentista que Zé Ibarra carrega habilmente não se basta apenas como uma homenagem a grandes nomes, como Cazuza e Ney Matogrosso, mas se desenrola em uma singularidade tão delicada.


Zé revelou sua ambiciosa ideia teatral para Afim Tour. E ele estava completamente correto na combinação shakespeariana. Foi o pedido tácito por amor em “Segredo” que abriu a performance, num querer quase melancólico combinado ao ritmado da banda.


Ibarra tem técnica e, como poderoso aliado, o ouvido compositor. O saber de onde começa e quando termina cada instrumento. A guitarra entrava onde a bateria sabia que precisava descansar. Seus solos também são um espetáculo à parte. É de se fechar os olhos e apreciar cada timbre dentro dessas quase duas horas de show.


Retrato de Maria Lúcia? Acompanhado apenas por dois violões, ele soube nos fazer sorrir ao ouvirmos cada dedilhado chegar timidamente. Algo simples, sem grandes demandas imagéticas, só com a voz - poderosíssima com um quê andrógino, por sinal - e o instrumento para dar a fragilidade que a melodia precisava.


O cantor ainda brincou com a linha do tempo e, ora revisitou seu passado, ora nos apresentou seu futuro. San Vicente foi a escolhida para traçar as sonoridades que o consolidaram e homenagear a carreira de um dos seus grandes mestres, Milton Nascimento, e sua precursora, Mercedes Sosa.


Ao final do show, entre suas pausas para contar histórias de vida moderadamente cômicas, ele nos apresentou “Último Vôo”, uma música que nasceu da ironia e do seu medo de morrer logo quando alcançou a plenitude.


Para o futuro, Zé afirmou que deseja um “álbum corajoso”. Se ele continuar nesse ritmo, quem será eu para discordar que o mundo será todo dele? Dito isso, volte para Ribeirão pela quarta vez.



 
 
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