RDD aposta na mistura de ritmos e apresenta primeiro álbum solo, “Hot Sauce”
- Guilherme Moro
- há 1 hora
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Responsável por embalar algumas das carreiras mais bem-sucedidas do país, o produtor, cantor e compositor baiano RDD voltou as atenções para si e apresentou seu primeiro álbum solo, “Hot Sauce”, em um ponto de convergência entre trajetória, identidade e ambição global. Apesar de os ouvidos mais populares já conhecerem o que as mãos do produtor são capazes, o novo projeto soa como cartão de visitas e é resultado de um processo longo: técnico, artístico e pessoal, que agora ganha forma em uma obra coesa, mesmo ao transitar por diferentes gêneros.
A unidade do álbum, aliás, não é acidental. RDD reconhece que esse equilíbrio nasce de um tempo de maturação. A experiência acumulada com a banda ÀTTØØXXÁ foi determinante nesse processo, sobretudo por oferecer “rodagem” e consolidar uma identidade mais direta e energética.
“Eu comecei a deixar esse meu lado de produtor solo meio que marinando ali. Quando começo a fazer minhas coisas como RDD, eu já tinha muito bem traçadas as coisas do ÀTTØØXXÁ, que é muito mais visceral, energia mil. Hoje, com o tempo, eu tive estudo, aprofundamento, e isso me permite condensar melhor minhas ideias e executar bem a parte técnica. Isso faz com que pessoas de outros lugares do país e do mundo consigam escutar e entender melhor, sem criar barreiras“, explicou.

Essa dualidade ajuda a entender por que “Hot Sauce” consegue passear por sonoridades como pagodão, funk, afrobeats e dancehall sem perder o eixo. Há uma base estética sólida, mas também liberdade criativa. Para o artista, isso está diretamente ligado à evolução técnica. Se antes tudo era resolvido no improviso do “faça você mesmo”, hoje há domínio de processo.
“Então esse outro lado, do RDD, vem muito mais aberto a explorar coisas que, no ÀTTØØXXÁ, eu não consigo por ter uma identidade muito forte. E outra parada é realmente o tempo, a técnica e as coisas que venho desenvolvendo durante esses anos. Quando comecei, eu já fazia mixagem, masterização, toda a parte técnica das minhas músicas, do ÀTTØØXXÁ e das coisas pessoais. Só que era muito no ‘faça você mesmo’, porque não tinha dinheiro, não tinha como fazer”, completa.
Demorou, mas saiu
O caminho até esse resultado, no entanto, não foi linear. O disco começou a tomar forma ainda em 2017 e foi sendo construído aos poucos, como um quebra-cabeça. Em vez de buscar feats estratégicos, RDD optou por preservar a naturalidade.
“Eu não queria forçar nada. Os feats foram acontecendo em diferentes sessões, em diferentes momentos, e eu fui encaixando esse quebra-cabeça”. Reunindo um time diverso de colaborações que reforçam essa pluralidade do projeto, RDD convida nomes como Afro B, Karol Conká, Rincon Sapiência, Rael, Rachel Reis, Kekel, Luccas Carlos, Gaab, além de artistas internacionais e novos nomes da cena“, concluiu.
Essa visão se desdobra com clareza em faixas específicas. “Joga a Bunda” representa, segundo ele, “a Bahia pura”, enquanto “Energy” aponta para “essa expansão para o mundo”. A dualidade funciona como espinha dorsal do álbum, evidenciando o equilíbrio entre raiz e projeção internacional.
Entre os momentos mais emblemáticos está “AYAYA”, parceria com Afro B, Karol Conká e Rincon Sapiência. A faixa concentra diferentes influências em uma estrutura dançante e intensa. “É a pimenta da Bahia”, define.
Mas “Hot Sauce” não se limita ao campo sonoro. A construção visual do projeto amplia essa experiência ao traduzir sensações em imagem. Inspirado por memórias pessoais, RDD recorre a elementos do cotidiano para construir essa estética. “
A música como se fosse um prato”, diz, ao relacionar o processo criativo ao preparo de alimentos — escolha de ingredientes, tempo de execução, combinação de sabores.
Essa abordagem sensorial reforça a proposta do álbum: fazer com que o público não apenas escute, mas sinta. Cheiro, textura e sabor aparecem como extensões do som, criando uma narrativa que ultrapassa o áudio.
No fim, “Hot Sauce” é o momento em que o artista assume plenamente sua visão, depois de anos atuando nos bastidores e colaborando com nomes como Anitta, Ludmilla e Pabllo Vittar. Agora, com clareza de propósito, ele sintetiza esse percurso em um trabalho que conecta técnica, vivência e identidade.
