Por meio de novo single, Paula Fernandes revisita trajetória marcada por cobranças e resistência
- Guilherme Moro

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Aos 34 anos de carreira, Paula Fernandes vive um momento em que passado e presente se encontram. Em “Era Eu”, nova música que inaugura uma etapa de celebração de sua trajetória com o projeto "30 e Poucos Anos", a cantora revisita a menina que começou a cantar aos oito anos e que, segundo ela, acabou ficando para trás enquanto a artista crescia.
O reencontro também trouxe uma reflexão sobre uma vida marcada pela autocobrança, pela necessidade de provar seu espaço e pela pressão para que mudasse sua música. Hoje, Paula afirma estar mais leve e capaz de equilibrar as duas versões de si mesma: a artista conhecida pelo público e a mulher que existe longe dos palcos.

A relação entre essas duas Paulas é justamente o centro de “Era Eu”. Ao explicar o enredo da música durante coletiva de imprensa, a cantora conta que durante muito tempo enxergou a criança que havia sido como alguém triste, isolada e esquecida em algum lugar do passado. A composição, porém, mudou essa percepção. Ao entender que aquela menina era ela própria, Paula conseguiu estabelecer um diálogo com a criança que havia deixado para trás.
“Eu sinto que aquela Paula de 8 anos ficou lá. Porque eu sempre senti uma discrepância muito grande na minha evolução como pessoa, como ser humano, como mulher e como artista. Então o artista voou e a menina continuou lá. E isso foi por uma vida. E essa música, nessa música, eu pude resgatar e quase como... Não é terapia, mas é terapêutica, como se eu tivesse tido oportunidade de reencontrar essa figura, essa pequena Paula”, explicou.
A expectativa, segundo ela, era encontrar uma criança machucada pelo caminho que precisou percorrer tão cedo. O que aconteceu foi justamente o contrário. A personagem que encontrou estava em um lugar de acolhimento, permitindo que Paula adulta pudesse finalmente reconhecer que aquela menina também fazia parte de tudo o que havia conquistado.
“Eu achava que eu ia me deparar com uma criança triste, num lugar escuro, num cantinho, sentada, eu sempre vi ela assim, agachada. E quando a letra da música foi vindo, eu fui entendendo primeiro que se tratava de mim, que era aquela pessoa ruim que eu estava encontrando, era a Paula pequena. E ela estava num lugar bom, ela não num lugar triste. E aí, a emoção da música, é algo real, porque aconteceu pra mim, realmente esse encontro interno, é que eu pude descobrir que ela era eu e pude dizer pra ela que a gente tinha dado certo.”
O processo também fez Paula perceber quanto da própria vida foi colocado em segundo plano para que a carreira pudesse avançar. A cantora começou muito cedo, transformou a música em profissão ainda criança e passou décadas em uma rotina intensa de trabalho. Agora, reconhece que recuperar algumas dessas partes de si mesma é um processo que ainda está em andamento.
“Eu ainda continuo tentando resgatar a criança, adolescente, aquela mulher de 20 anos que eu fui, que eu deixei de ser, por conta do meu trabalho. Eu sempre trabalhei demais, eu sempre fui uma máquina de trabalho. Então eu acabei, por uma questão de necessidade, deixando essa pessoa mesmo, essa menina para trás. Ela me faz muita falta. Só que hoje eu sinto que ela está muito mais presente, ela está muito mais perto de mim.”
A perfeição que nunca existiu
Se a infância foi deixada para trás em nome da carreira, outro elemento acompanhou Paula durante praticamente toda a trajetória: a cobrança. A cantora conta que sempre teve uma exigência muito grande consigo mesma e que, olhando para o passado, faria uma mudança importante: seria menos severa consigo.
Ela lembra que o perfeccionismo não nasceu com a fama. Ainda adolescente, já cobrava de si mesma resultados acima do que considerava aceitável. A característica, que inicialmente poderia parecer uma ferramenta para alcançar excelência, acabou também interferindo na espontaneidade.
E conforme o sucesso foi aumentando, a responsabilidade também. Ela foi uma das artistas que mais vendeu discos na década de 2000, período em que a indústria fonográfica já não obtia tanto sucesso com a comercialização dos álbuns por conta da pirataria.
“Eu acho que, assim, eu faria tudo de novo. Mesmo porque deu certo. Eu acho que talvez, pelo fato de ser muito perfeccionista, eu acabei me cobrando demais. Eu acho que se eu pudesse voltar no tempo, isso eu faria diferente. Essa minha autocobrança, essa necessidade de fazer a melhor entrega, a uma perfeição que não existe. Eu acho que eu teria, eu diria pra ela, tipo, você vai errar, não vai ter jeito, vai ter seus tropeços”, explicou.
Contra a maré
A história de Paula Fernandes também é marcada pela resistência às expectativas da própria indústria musical. Desde o início, a cantora conta que ouviu que determinadas características de sua música seriam obstáculos para o sucesso: cantar canções mais lentas, compor o próprio repertório e ocupar um espaço predominantemente masculino.
Ao longo dos anos, ela diz ter sido pressionada a mudar de direção diversas vezes. Depois que o sucesso chegou, a cobrança apenas ganhou uma nova forma: a necessidade de repetir constantemente os grandes resultados.
“Eu acho que, de bate pronto, eu sofri pressão pra mudar de lado várias vezes. Desde o princípio, desde quando eu apareci na gravadora a primeira vez, ‘ah, música lenta não dá certo’. ‘Ah, porque compositora não dá certo’. ‘Ah, porque mulher não dá certo’. De cara, só pra ser mulher, só pra ser compositora, só por querer cantar música de mensagem, eu sofri pressão uma vida.”
A cantora também lembra que o sucesso trouxe uma nova cobrança. Depois de conquistar milhões de ouvintes, veio a expectativa de que cada novo trabalho repetisse imediatamente o desempenho do anterior.
“E depois que as coisas aconteceram pra mim, aí começou outra pressão. E aí o hit, e o hit, o próximo hit, e o próximo estouro, e o pipoco. E o hit, peraí gente, eu levei 15 anos pra poder compor um álbum que vendeu 2 milhões e meio de cópias, vocês estão querendo que eu componha um sucesso em 15 minutos, não funciona assim, né?”
Foi nesse processo que Paula consolidou uma das principais convicções que carrega hoje: a necessidade de se adaptar às mudanças sem abrir mão daquilo que considera essencial em sua identidade artística.
“Eu sei que as coisas mudam, vai renovando mesmo, e tudo bem, eu acho que é isso mesmo. E a gente tem que se repaginar, mas perder minha essência, sabe? De jeito nenhum. Eu acho que se eu quero ser referência, eu tenho que me permitir ser o que eu sou e arriscar mesmo. Porque erros eu vou cometer. Mas eu acho que eu acertei muito mais que errei.”



