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  • Foto do escritorGuilherme Moro

Perí fala sobre Nove Mil Anjos e as perdas de Champignon e Peu

Curta, porém intensa e marcante. Essas duas palavras são as que melhor definem a trajetória da banda Nove Mil Anjos. Considerada uma superbanda por conter três integrantes embalados de projetos com absoluto sucesso, o grupo causou amor e ódio e é relembrado mesmo após uma década do término. Formado por Junior Lima (Bateria), Champignon (Baixo) e Peu Sousa (Guitarra), o grupo precisava de um vocalista e encontraram em Perí a voz e personalidade ideal para fazer a banda acontecer.



Início


Perí trabalhava como garçom/cantor nas noites paulistas, ganhava 90 reais por dia de trabalho e usava o dinheiro para registrar suas composições em um estúdio de um amigo. Mal sabia ele que essas idas e vindas a esse estúdio iriam mudar sua trajetória para sempre: “Certo dia esse meu amigo me contou que havia uma banda procurando um vocalista, e me passou o número da Monique (Mulher do Peu Sousa)”. Peu era guitarrista da Pitty e ganhou notoriedade com seus riffs e arranjos de guitarra autênticos e diferentes. Perí prossegue a história: “Eu liguei para o número, ele atendeu e me falou para ir até a casa dele. A gente morava em bairros muito próximos. Quando eu cheguei, ele estava com o Galvão (Tio de Peu e ex-Novos Baianos). O Peu cantava uma vez e pedia para eu repetir, depois ele me perguntou se eu também compunha e respondi que sim. Quando eu dei a resposta positiva, o Galvão me deu um caderno e uma caneta e pediu pra gente escrever nossa primeira música, só de lembrar me da um arrepio. A música que a gente compôs nesse dia se chamava ‘diferente dessa vez’, usamos essa música como o especial de fim de ano da banda. A gente percebeu que o negócio deu liga, foi então que o Peu resolveu ligar para o Júnior (eu não fazia ideia que era o da dupla com a Sandy). Nós tocamos uma música ali no telefone e ele curtiu, ouvindo a voz dele no telefone já me soava familiar. O Juba veio na casa do Peu e a partir dai eu já não tava entendendo mais nada, tudo era muito surreal. Dez minutos depois chegou o Champignon e eu pensei 'o que é que eu tô fazendo aqui'? Depois disso nós fomos para a casa do Júnior e lá em cima tinha um estúdio. Ali eu já comecei a entender que eles estavam se planejando fazia tempo. Eles me perguntaram se eu ficaria fazendo um mês de teste com eles. Eu topei na hora. Foi uma coisa muito legal deles me colocarem lá, mas a cobrança veio”.


Gravação do álbum na Califórnia


O único álbum lançado pela Nove Mil Anjos, foi gravado na Califórnia com a produção de Sebastian Krys, vencedor de 17 Grammys. Perí expõe à público como foi essa viagem e todo o processo de criação do álbum: “No primeiro mês a gente compôs mais de 30 músicas, principalmente eu e o Peu. A gente começou a colocar em prática o plano de gravar na Califórnia. Já tinha alguns estúdios no radar, mas a gente escolheu esse pela mesa de som. Foi animal! A gente estava no exterior gravando um disco de rock e deu para a gente conviver muito. Antes de viajar, nós ensaiávamos seis horas por dia e cinco vezes por semana. Chegamos lá já sabendo muito bem o que tinha que ser feito, mas quando o álbum chegou no Brasil a sonoridade não era padrão rádio nacional. Hoje em dia que o álbum está em todas as plataformas digitais, a galera começou a me escrever falando que começaram a entender as letras e sonoridade da banda. Eu achei muito louco isso. As pessoas reagem de maneira diferente. Na época não tinha toda essa gama de possibilidades de você estar a um clique de ouvir uma música”, afirma.


A exposição na grande mídia e críticas

Do dia para noite a vida de Perí se transformou. Antes anônimo, agora ele fazia parte de um conjunto que os demais integrantes tinham uma legião gigante de fãs. Não foi fácil. Ele em especial sofreu muitas críticas. O vocalista também relata a exposição na mídia e como ele trabalhou todas essas informações de uma vez só: “Se eu falar que não gostei de estar na mídia, vou estar mentindo. Tocar no VMB, fazer apresentações nos programas de internet que na época eram vanguarda, abrir show para o Marron 5, tocar com a Ivete Sangalo, foi tudo muito incrível. A questão que pegou a Nove Mil Anjos, foi a expectativa de públicos que eram muito diferentes entre si. Nós agradamos muita gente, mas frustramos muitas pessoas também. Não tinha como ser diferente, eles escolheram me colocar na banda e a partir do momento que eu fui escolhido por ser quem eu sou, a minha personalidade tem que ser mantida. Acho que tentei manter minha essência ao máximo, mas deixei de aproveitar algumas oportunidades por estar na defensiva”, relembra.



Convivência e o fim da Nove Mil Anjos


Em setembro de 2009, Júnior Lima confirmou que a banda daria uma pausa já com boatos de separação definitiva na mídia. Em nenhum meio de comunicação foi divulgado o que realmente aconteceu. Perí abriu o jogo e contou tudo sobre o fim da banda: “A gente nunca anunciou uma pausa que seria provisória, também nunca vendemos uma possível volta. Por uma sintonia natural, eu e o Juba ficamos mais próximos e o Peu e o Champs também ficaram mais juntos. Meu estilo de vida se encontrou muito mais com o Júnior e depois da banda nós passamos por muitas coisas juntos. Eu senti que a gente estava andando ‘dois pra lá e dois pra cá’. Eu perdi a confiança. Também vi coisas que aconteceram com o próprio Júnior que me fizeram perceber que não dava mais para confiar ali. O fim da banda no meu coração foi um dia que fomos no Estúdio Mega para fazer um remix de uma música que eu e o Champignon íamos cantar juntos. Nesse dia muitas coisas nada a ver tinham rolado alguns dias antes e me fizeram questionar se eu queria colocar minha alma nesse barco. Eu tentava avisar o Júnior, mas eu não eu podia porque tinha sido o último a chegar. Naquele dia gravei desanimado e eu sabia que um cantor como eu jamais iria gravar desanimado em um estúdio como é o Mega. Eu nunca cheguei nem perto (e sei que o Ju também não) do motivo que fez com que acontecesse tudo que rolou com o Champignon e o Peu. Eu tenho o máximo de respeito com a família dos dois, mas são escolhas que acabam virando obrigações e você acaba não tendo mais controle. A Nove Mil Anjos, no meu coração, não termina nunca. Foi uma baita banda, com três baita músicos e uma baita estrutura. Viajamos todo o Brasil, fomos em todas as TV’s, fizemos tanta coisa legal e eu conheci muita gente boa. Foi um período curto, mas que gerou muita amizade.


As perdas de 2013


O ano de 2013 não foi nada fácil para Perí e para ninguém que de alguma maneira esteve ligada a Nove Mil Anjos. Em março, Ferrugem (que era segurança da banda), faleceu devido a um infarto, Peu Sousa se suicidou em maio e Champignon em setembro. Chorão e o preparador vocal da banda também faleceram neste fatídico ano. Relembrando os momentos difíceis, Perícles relatou como que foi se cuidar após tantas energias ruins de uma só vez: “Eu acho que fui uma das últimas duas ou três pessoas a falar com o Champignon. Com o Peu eu não falava fazia muito tempo e o Ferrugem virou meu amigo mesmo, eu trouxe ele pra minha vida. Foi uma sequência de novidades. Eu nunca tinha perdido pessoas que eu conhecesse em um curto intervalo de tempo. Eu achei melhor dar uma parada com tudo, estava terminando os shows da minha carreira solo com banda. Conversando com a minha amiga depois de ter tido algumas situações em que eu fiquei muito mal, fui para reuniões em que o pessoal ficava meditando, recebendo pessoas e boas vibrações. No mesmo horário que eu participava iam muitas mães que tinham acabado de perder seus filhos. Elas chegavam em choque e muitas vezes eu tinha a função de ajudar elas. Esse contato com elas me fez ressignificar o valor da vida”.

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