Jão transforma luto, literatura e espiritualidade em novo álbum "Memórias Póstumas"
- Guilherme Moro
- há 2 horas
- 3 min de leitura
Jão inicia um novo capítulo de sua trajetória com o lançamento de "Memórias Póstumas", quinto álbum de estúdio da carreira. O trabalho chega após o encerramento do ciclo dos discos inspirados nos quatro elementos da natureza e apresenta um projeto mais introspectivo, construído a partir de experiências pessoais, referências literárias e reflexões sobre a vida, o luto e a espiritualidade.
Composto durante um período de afastamento dos palcos e das redes sociais, o álbum foi diretamente influenciado pela morte do pai do artista. A presença dessa experiência atravessa diferentes momentos do repertório, especialmente na faixa de abertura, "Catedral", que aborda a perda e a permanência da memória.
"É algo que ainda não processei e acho difícil que aconteça, porque meu pai ainda é muito presente. E as pessoas sempre têm receio de falar sobre ele comigo, mas elas não sabem que eu adoro falar sobre ele, mantê-lo vivo", afirma Jão.

O cantor explica que o novo trabalho não foi concebido de forma linear. Ao contrário dos projetos anteriores, as músicas nasceram de anotações, frases soltas e ideias que foram sendo organizadas ao longo do processo criativo.
"São vários caquinhos, sentimentos que você ainda não sabe o nome e um monte de vômitos de palavras que você vai remontando e que, quando você se afasta, revelam a figura toda. A ordem deste disco está pautada em não achar uma solução para a maior pergunta dele."
O título do álbum faz referência ao clássico "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis. Segundo Jão, literatura e música caminham juntas neste projeto, que utiliza a escrita como ferramenta para ressignificar sentimentos.
"Neste disco, a vida e a literatura são a mesma coisa. Quando comecei a escrever, eu precisava usar as palavras para dar novos significados às coisas."
Ao todo, o artista escreveu cerca de 68 músicas durante o processo criativo. Dessas, apenas 14 foram selecionadas para integrar a versão final do álbum.
Produção reúne parceiros de longa data
Jão assina a produção de todas as faixas. A maior parte delas foi desenvolvida ao lado de Zebu, colaborador frequente desde o álbum Pirata. Já as canções "Catedral" e "Eu Sempre Volto" contam com produção de Janluska e Gabriel Duarte, conhecidos por trabalhos com Marina Sena e ANAVITÓRIA.
O disco também marca a estreia de Érica Silva na equipe do cantor, participando com baixo, violão e arranjos de cordas. Outro destaque é a presença das flautas interpretadas por Audryn Souza, utilizadas para reforçar o caráter intimista e cotidiano das composições.
"Este é um álbum muito cotidiano, de ver a beleza nos detalhes do dia a dia, e eu queria um instrumento que fosse muito singelo e brasileiro para representar isso."
A religiosidade também aparece como um dos temas centrais do projeto. Criado em uma escola franciscana, Jão afirma que sempre teve interesse por diferentes manifestações espirituais e transformou essa busca em parte da narrativa do álbum.
Além das novas composições, "Memórias Póstumas" preserva registros pessoais do artista. Áudios gravados por seus pais e amigos ao fim da última turnê foram incorporados ao disco como forma de eternizar essas lembranças.
Colaborações especiais
Entre as 14 faixas, apenas "João" não tem letra assinada pelo cantor. A composição é de Pedro Tófani, diretor criativo dos shows de Jão e seu namorado. Ainda assim, o artista participa da produção e grava todos os teclados da música.
Já a faixa "O Amor" reúne nomes históricos da música brasileira. O produtor Marco Mazzola participa da produção ao lado de Jão e Zebu, enquanto o guitarrista Rick Ferreira, parceiro de Raul Seixas, e o baixista Paulo César Barros, fundador do Renato & Seus Blue Caps, integram a gravação.
Ao unir experiências pessoais, referências literárias e uma produção cuidadosa, "Memórias Póstumas" inaugura uma nova fase na carreira de Jão e apresenta um trabalho que amplia os caminhos explorados pelo artista ao longo de quase uma década de trajetória fonográfica.
