Do “Fantasy”, de Xand, ao Rock in Rio: André Gress revela os bastidores da criação de grandes espetáculos

Um grande espetáculo já não termina necessariamente quando as luzes do palco se apagam. Em uma indústria musical cada vez mais conectada às redes sociais, à imprensa, às marcas e à produção de conteúdo, aquilo que acontece durante uma apresentação pode ganhar novos significados depois do último acorde.
É a partir dessa perspectiva que o diretor artístico André Gress enxerga o palco. Reconhecido por trabalhos com artistas como Xand, em projetos como Fantasy e São João, Gress também esteve recentemente à frente da direção artística de Priscilla Senna no Rock in Rio e do DVD de Gege Brismarck.
Para ele, pensar um espetáculo atualmente significa compreender que o palco é apenas uma das partes de uma experiência muito maior.
“Eu penso cada vez mais o espetáculo de maneira 360 graus. O que acontece ali pode alimentar a comunicação do artista, gerar conteúdo para as redes sociais, produzir imagens para imprensa, criar conversas, fortalecer relações com marcas e, principalmente, construir símbolos que passam a fazer parte da identidade daquele momento da carreira. Às vezes, uma imagem criada dentro de um show ganha uma dimensão tão grande que passa a representar uma era inteira daquele artista. É quando o espetáculo deixa de existir apenas durante aquelas duas horas e começa a ocupar outros espaços”, explicou.
Essa transformação tem efeitos que vão além da experiência do público. Um espetáculo pode ajudar um artista a alcançar novos mercados, chamar a atenção de festivais, marcas e contratantes e ampliar sua presença na mídia. É por isso que Gress trata a produção de um show como um investimento que permanece mesmo depois do encerramento da temporada.
“E isso tem consequências muito concretas: pode abrir novos mercados, aumentar a relevância do artista para festivais, marcas e contratantes, gerar mídia espontânea e até mudar a dimensão dos espaços que ele passa a ocupar. Por isso, para mim, investir em show é investir na construção de patrimônio artístico. A estética pode mudar na próxima turnê. A memória que você construiu na cabeça das pessoas permanece”, concluiu.

Cada artista, uma história
Essa visão ajuda a explicar também a variedade de projetos desenvolvidos por Gress. Trabalhar com artistas de universos diferentes exige, antes de qualquer decisão estética, entender qual história está sendo contada naquele momento.
A direção artística, nesse caso, se aproxima também de uma discussão sobre posicionamento de carreira. Antes de pensar no tamanho do cenário ou nos recursos que estarão disponíveis, é preciso entender o momento vivido pelo artista.
“Eu não consigo pensar direção artística desconectada de posicionamento. Antes de definir qual narrativa vamos construir ou quais recursos artísticos, visuais e tecnológicos vamos utilizar, existem perguntas que, para mim, são fundamentais: quem é esse artista hoje? Em que momento da carreira ele está? Para onde ele quer ir? O que esse novo movimento pretende comunicar? E, principalmente, por que estamos fazendo isso agora?”
Para Gress, os “porquês” são fundamentais porque um novo espetáculo não deveria existir apenas como uma obrigação dentro do calendário de uma carreira. Ele pode funcionar como uma espécie de declaração sobre o momento que aquele artista está vivendo.
“Os porquês são muito importantes para mim. Porque um espetáculo não deveria existir simplesmente porque chegou o momento de fazer uma nova turnê, gravar um audiovisual ou ocupar um grande festival. Ele precisa ter uma razão dentro da trajetória daquele artista. E, nesse sentido, eu acredito que um show pode ser muito mais do que uma resposta ao momento de carreira. Ele pode ser a vitrine, o abre-alas de um novo posicionamento. Muitas vezes, é através do palco que o público enxerga primeiro a transformação que aquele artista está vivendo”.
A experiência com nomes de diferentes trajetórias reforça, para ele, a impossibilidade de reproduzir uma mesma fórmula em projetos distintos.
“Trabalhar com artistas de universos tão diferentes — de nomes já consolidados a artistas que estão construindo agora seu espaço no mercado — deixa isso ainda mais evidente. Não existe uma fórmula que possa ser replicada. Cada artista é único. Cada um tem uma verdade, um público, uma trajetória e um próximo passo. Às vezes, o trabalho da direção é potencializar algo que o público já reconhece naquele artista. Em outros momentos, é revelar uma camada que ainda não foi percebida. E existem projetos em que o espetáculo participa diretamente de uma mudança de posicionamento e ajuda a inaugurar uma nova fase de carreira”.

Priscilla Senna e a chegada ao Rock in Rio
Essa concepção ganhou um desafio particular no trabalho de Gress com Priscilla Senna no Rock in Rio. Um festival dessa dimensão apresenta uma questão diferente daquela encontrada em um show próprio: além dos fãs que já conhecem o artista, existe uma parcela do público que pode estar tendo ali seu primeiro contato com aquela carreira.
O espetáculo precisa, portanto, funcionar simultaneamente como celebração para quem já acompanha a artista e como uma espécie de apresentação para quem ainda está descobrindo seu trabalho.
“Muda principalmente a responsabilidade da narrativa. Quando você está dentro de um show próprio, existe uma relação previamente construída com aquela plateia. Em um festival como o Rock in Rio, você também está falando com pessoas que talvez estejam tendo o primeiro contato com aquele artista. Então esse espetáculo precisa funcionar simultaneamente como celebração para quem já conhece e apresentação para quem está descobrindo”.

No caso de Priscilla, a solução encontrada por Gress parte justamente daquilo que poderia parecer menos universal: a origem da cantora e sua relação com Pernambuco e com a música popular.
Em vez de tentar neutralizar essas características para adaptar a artista a um grande festival, a direção escolheu colocá-las no centro da narrativa.
“No caso da Priscilla, isso é muito potente porque existe uma história extraordinária por trás daquela chegada. Ela carrega uma identidade musical e cultural muito forte, uma relação profunda com Pernambuco e com o público que acompanha sua trajetória. Não faria sentido chegar ao Rock in Rio tentando apagar essas características para construir algo supostamente mais universal. É justamente o contrário. Quanto maior o palco, mais importante é saber de onde você veio”.




