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BaianaSystem fala sobre criatividade, ancestralidade e os caminhos da produção musical

  • Foto do escritor: Jú Burian
    Jú Burian
  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

Quando o divino maravilhoso e o protesto se encontram, BaianaSystem se forma. O anoitecer do 1° de agosto ganhou novos tons quando a banda soltou os riffs da guitarra baiana no João Rock.


Sob a energia de manifesto, Russo Passapusso, Cláudia Manzo e Roberto Barreto gritaram contra o sistema ao lado de Bnegão e Vandal, ora no compasso de "Reza Forte", ora na decolonial "Sulamericano" - em uma rítmica hipnose para os ouvidos do público.


É fácil se apaixonar pela potência e sincronicidade do inesperado. E BaianaSystem faz isso com excelência ao levar a multidão no delírio latino à la Navio Pirata.


Enquanto isso, nos bastidores, a dualidade entre o furacão criativo e a simpatia gostosa fala nas entrelinhas. Para o Blog Música Boa, os integrantes revelaram detalhes sobre as dinâmicas de criação que permeiam suas rotinas.


 Foto: @alua.rosa / Música Boa
 Foto: @alua.rosa / Música Boa

O Lucro da Criatividade


Pensa na mistura da psicodelia e da Tropicália. Sentar para falar com BaianaSystem é mergulhar de olhos fechados na descida da montanha-russa: você sente a adrenalina de não saber o que vem aí - mas vai querer repetir.


E, desta vez, o assunto foi criar. Russo bateu na tecla da tradição e da mão na massa. "Eu acredito num processo, eu tava até falando com o Bê [Roberto], de fazer laboratórios musicais, voltar esse processo todo. Eu acredito que a gente é escrito pela música, né?", aponta o vocalista.


O cantor baiano ainda traz fortes referências que norteiam a arte como Antônio Carlos & Jocáfi, Mestre Bule-Bule e a própria Cláudia Manzo. "Pessoas que vão ensinando a gente a compor. Eu acho que a música faz a gente. Tem um ditado que fala que ‘a gente faz o caminho e o caminho que nos faz’".


Para Passapusso, a criatividade e a métrica traz uma felicidade única, no entanto, existe uma forma diferente de alinhar sonoridades. "Mas quando a música me faz fora do sentido de criatividade, quando eu ouço aquela música para cantar e para escrever, é muito mais emocionante. Geralmente, isso vem pelo acesso da melodia, que eu acho que é uma das linhas da ancestralidade, que vai grifando aí na nossa identidade o caminho para compor", finaliza.


 Foto: @alua.rosa / Música Boa
 Foto: @alua.rosa / Música Boa

E a realidade também pode ser fonte de inspiração, como traz Claudia Manzo. Para se referenciar, a voz dengosa por trás de ‘Agulha’ afirma buscar um processo imagético com fotografias de situações e histórias. "A gente também começa a ter um olhar sempre aberto para o tudo que pode trazer alguma faísca para fazer uma grande fogueira de músicas. Então, acho que estar atento, com coração aberto para esses estímulos também, faz parte do meu processo".


Ao contrário de Passapusso e Manzo, que destacam os estímulos individuais para a central de ideias, Beto Barreto ressalta a cumplicidade entre os integrantes como incentivo. "Nos últimos tempos, os processos de produção, muitas vezes é cada um fazendo em casa, [depois] manda, e o outro grava. E agora, nesse auge de IA, cada vez mais as pessoas vão se afastando. Acho que a grande onda é o encontro. Por isso que a gente fica falando do laboratório. Quando se encontra, essa faísca, esses cantos, isso aparece", conta o guitarrista.


As veias abertas de produção


E bora falar da vanguarda. Do detentor do manifesto. Vandal deu a letra ao lado de BaianaSystem sobre como a sonoridade nasce no dia a dia - e mostrou porque sempre esteve à frente do tempo. "Só para contextualizar, eu acredito que o processo de produção de tudo na vida, é viver a vida. Que a música vem para você, né? A música não é nossa, a música é dada a nós por uma deusa, a música, como o Russo fala, por um Deus. Enfim, tudo o que você acredita. A música vem quando você tá dormindo, ela vem na sua cabeça, você acorda de madrugada, escreve, vem pela manhã", expressa o cantor baiano.


Ele ainda observa a relação da música para além de um conjunto de ritmos. "A música é vivida de verdade, ela é vida, ela é viver. Eu acho que as pessoas mais criativas são as pessoas que mais observam o seu dia a dia. E esse dom, que é dado por Deus, é o dom da vida", exterioriza.


A ideia da música como um presente divino também atravessa os pensamentos de Bnegão. "Criatividade é Deus", reflete. "Se você parar para ficar racionalizando, mentalizando muito, sai coisas e tal, coisas acontecem, sabe?".



Para confirmar seu pensamento em torno do misticismo na criação, o ex-integrante do Planet Hemp relembra bem-humorado sobre o novo longa-metragem biográfico do Michael Jackson (2026). "Tem uma cena maravilhosa naquele filme do Michael Jackson”, aponta. “Eles falam: 'Ô, Michael, o que você tá fazendo?'. E ele diz: "Eu tô aqui vendo aqui se Deus manda uma música para mim, porque se eu não tiver preparado, ele vai mandar para o Prince", conta entre risadas.


A Vida é Curta para ouvir depois


Outrossim, BaianaSystem carrega sua identidade nas linhas, nos gestos e na boca sem pestanejar. Seja nas rodas de bate-cabeça, nos manifestos políticos ou no pertencimento libertário inerente ao seu público.


Em outras palavras, um retrato respeitoso para exultar nossas construções afro-brasileiras. Como traz o mestre Russo, "a música é uma deusa que tá num lugar e acessa a gente. Somos todos instrumentos". Obrigada por tanto, BaianaSystem.

 
 
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