• Guilherme Moro

João Camarero lança “Gentil assombro”, seu terceiro disco solo

O título do novo disco solo de João Camarero, “Gentil assombro”, que chega dia 26 de julho às plataformas de streaming, resume bem as dez faixas do álbum. Por um lado, há a delicadeza de temas como “Um choro breve” e “Homenagem a Armando Neves”, duas inéditas de Paulinho da Viola, interpretadas com a mesma rara fina elegância do grande cantor e compositor carioca. Por outro, espalha-se pela espinha do ouvinte o assombro do virtuosismo técnico do violonista, sempre executado de forma cristalina e sem parnasianismos. Mesmo quando o número exige destreza ímpar, a preocupação é prestar um serviço à obra, colocando a música em primeiro lugar.



Um exemplo disso pode ser ouvido em “Dança brasileira” (Radamés Gnattali) e “Articulado” (Sérgio Assad) — composta especialmente para o músico —, nas quais a excelência de Camarero ao violão fica nítida, ressaltando a maturidade artística de um operário da melodia. O erudito apaixonado por canção popular, o músico popular de alma concertista, um violão límpido e poderoso que se sente à vontade tanto no palco de show — ao lado de Maria Bethânia, Leny Andrade e Cristóvão Bastos, entre tantos outros — quanto na roda de choro ou em uma sala de concertos, como provam as autorais “Pequenas valsas sentimentais #3 e #5”, as únicas composições próprias do álbum.


“São quase como miniaturas, músicas curtas. Procuro achar um caminho com esses temas mais sentimentais, é a busca pelo acabamento. Estou preocupado em fazer uma música no sentido mais amplo possível, que toque as pessoas de alguma maneira, seja pela estranheza ou pelo conforto, uma coisa muito ligada à contemplação. São um pouco mais líricas, se inserem no disco de maneira natural, primeiro porque é importante gravar coisa minha, segundo porque elas têm um caráter bem revelador do que eu faço, do estilo que eu toco, mostram onde eu quero estar. São bem brasileiras, mas têm uma estética e harmonia ligadas a outros estilos também, é um retrato do que acredito agora”, afirma Camarero.


Crédito: Gil Inoue

O espanto causado pela interpretação do violonista também pode ser ouvido em “Sherzino mexicano”, de Manuel Ponce, e nas três obras de Manuel de Falla que encerram o álbum: “Danza del corregidor”, “Romance del pescador” e “Canción del fuego fatuo”, todas pontuadas por uma clareza estonteante, na qual cada nota tem seu lugar, sem exageros, com uma aparente simplicidade que apenas o domínio do instrumento permite. É este esmero que faz de Camarero uma espécie de carpinteiro do violão contemporâneo brasileiro. Não à toa, a carpintaria é o hobby ao qual Paulinho da Viola se dedica, e a doação de duas músicas inéditas suas demostram a admiração do baluarte da MPB pelo jovem paulista de 32 anos.

Impactado após escutar Camarero pela primeira vez, em 2020, o escritor e cronista Antonio Prata resume este “Gentil assombro”: “Apurei o ouvido, ergui a cabeça e ouvi o violão dizendo, ‘amigo, enquanto não chegar o apito ou juízo final, dá pra virar esse jogo’. Não é possível um país que produziu este disco estar fadado ao fracasso... Com talento e apuro, João Camarero assopra a brasa por baixo de toda a cinza do patético Brasil oficialesco, tosco e antimusical, nos aproximando de um outro país: inteligente, criativo, inclusivo, talentoso e livre. Ouvi-lo faz cair o queixo. O meu já caiu: agora, que caia o seu. Por favor, faço questão, eu ouço todo dia, sério mesmo, imagina, vai aí, não há de quê.”


Breve biografia

Natural de Ribeirão Preto, João Camarero nasceu em 1990 e foi criado em Avaré, também no interior de São Paulo. Estudou no Conservatório de Tatuí, em seu estado natal, e na Escola Portátil de Música, no Rio de Janeiro, onde trabalhou como monitor e professor.

Como violonista, acompanhou em palcos ou estúdios artistas como Yamandu Costa, Mônica Salmaso, Leny Andrade, Fágner, Paulinho da Viola e Maria Bethânia, com quem gravou o álbum “Noturno” (2021) e duas participações em homenagens a Aldir Blanc e Hermínio Bello de Carvalho, nas faixas “Palácio de lágrimas” (Aldir Blanc/Moacyr Luz) e “Cobras e lagartos” (Sueli Costa/Hermínio Bello de Carvalho), respectivamente.

No âmbito da composição, já escreveu músicas com Cristóvão Bastos, Moacyr Luz, Roberto Didio e Paulo César Pinheiro, entre outros. É vencedor dos prêmios MIMO Instrumental (2015) e do Concurso Novas--3 (2016), e integra o grupo Regional Imperial e o Conjunto Época de Ouro, que acompanhava Jacob do Bandolim, no qual assume a posição de Dino 7 Cordas, um de seus ídolos no instrumento.

Em sua carreira solo, publicou os discos “João Camarero” (2014), “Vento brando” (2019) e, agora, prepara o lançamento de “Gentil assombro”. Pela gravadora Biscoito Fino, gravou os singles “Concertante No.3” e “Balada para Martin Fierro”, ambas em 2020, e “Valsa de cinema” (2021), parceria com Renato Braz e Roberto Didio. Além de diversas cidades Brasil afora, já se apresentou em importantes salas de concerto em países como EUA, Japão, Coreia do Sul, França, Alemanha, Itália, Holanda, Inglaterra, Bélgica e Áustria.

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