• Guilherme Moro

Entrevista com Rafael Lia: Guitarrista da Mucky Fingers (Oasis Cover)

Atualizado: 14 de mai. de 2020

Nosso entrevistado de hoje foi durante anos figura carimbada nos bares e pub's de Araraquara. Ele vai contar sobre suas experiências, projetos e bandas que fez parte em todos esses anos. Hoje vamos bater um papo com Rafael Lia, Guitarrista da Mucky Fingers e Carcamanos.


Blog Música Boa

Rafa, obrigado pela disponibilidade e por aceitar o convite para a entrevista! Para começar gostaria que você contasse um pouco de como surgiu seu interesse por musica e das suas maiores influências. Fale também um pouco sobre sua iniciação na guitarra e das bandas que você tocou no colégio em sua adolescência.

Rafael Lia

Fala, Gui! Cara, eu que agradeço o convite e fico muito feliz em participar do seu blog. Meu interesse por música começou na adolescência. Quando eu tinha uns 14 anos, mais ou menos, lembro que tinha alguns amigos de escola que estavam aprendendo a tocar violão e comecei a sentir vontade de aprender também. Em 2001, ganhei meu primeiro violão e fui fazer aulas na Casa da Cultura, com o professor Luys Rosário. Partir do violão pra guitarra foi o ciclo natural das coisas já que eu gostava de rock e sempre tive vontade de ter bandas com os meus amigos. Quando comecei a fazer aula de violão eu curtia rock nacional (Legião, Engenheiros, Raimundos) aí quando parti pra guitarra coincidiu com a fase em que estava ouvindo bastante Oasis então os solos do Noel Gallagher foram os primeiros solos que tirei na guitarra. Como eram solos mais simples e também com uma melodia que me agradava bastante, foi uma grande influência naquele momento. Minhas primeiras bandas se chamavam Legionários do Deserto e Arkitetos do Himalaya. Isso foi entre 2002 e 2003, quando estava no 2º e 3º colegial. Eram bandas que eu me reunia com uns amigos e ensaiávamos algumas músicas pra tocar nos festivais dos colégios. O Colégio Progresso e o Colégio Objetivo sempre organizavam esses Saraus e também tinha a escola de música Opus que uma vez por mês organizava um palco livre. A gente fazia apresentações pequenas, tocando de 3 a 5 músicas. Blog Música Boa

Após algumas bandas que só se apresentam no colégio você finalmente entra para uma banda que faz apresentações em bares e casas da cidade, o nome dessa banda é Supernova e é a primeira banda que você participou que trabalhava musicas autorais. Como a banda foi formada e como era feito esse processo de composição das musicas?

Rafael Lia

A Supernova nasceu em 2003. Na minha época de escola praticamente todos os caras da minha sala gostavam de rock, tocavam algum instrumento e tinham banda (bons tempos). Lembro que fui numa festa, em uma chácara, em que uma galera tinha organizado um rolê com algumas bandas e alguns amigos iam tocar. Lá conheci o Lucas, vocalista da Supernova. Eu estava usando uma camiseta do Oasis e ele veio trocar ideia comigo, já que ele curtia muito Oasis também. Nesse dia conversamos muito sobre música, vimos que tínhamos um gosto muito parecido e nessa primeira conversa já saiu a ideia de montarmos uma banda. Trocamos contato (acho que na época era ICQ, hahaha) e uns tempos depois marcamos um ensaio. Eu convidei um guitarrista e um baixista que já tocavam comigo e ele chamou um amigo dele que era baterista. A gente também tocou em festival de escola mas depois de terminarmos o colegial seguimos com a banda e gravamos um disco de música autoral. As músicas todas foram compostas pelo Lucas (vocalista) e pelo Diego (guitarrista). Os dois escreviam muitas músicas, sempre se encontravam pra compor juntos e passavam horas tocando violão e trabalhando nas letras.

Blog Música Boa A banda durou 2 anos (2003-2005) e no começo de 2005 vocês chegaram a gravar um disco de maneira independente intitulado de “Pelos Satélites”. Como foi a ideia de gravar esse disco e como foram feitas as gravações?

Rafael Lia

Como eu disse anteriormente, o Diego e o Lucas compunham muito. No meio dos covers que ensaiávamos na época, a gente já tinha umas três músicas bem prontinhas mas não tínhamos recurso financeiro pra gravá-las. Foi aí que o pai do nosso baterista nos presenteou com a gravação do nosso disco. A princípio a gente gravaria um EP com essas três músicas que já estavam prontas mas o nosso “paitrocinador” disse que era pra gente fazer direito e gravar dez músicas. A partir daí começamos a trabalhar nas outras sete músicas que completariam o álbum. Como os caras que compunham já tinham muita coisa pronta, passamos a trabalhar nos arranjos dessas músicas. Foi um processo que a gente teve que fazer bem na correria, pois a essa altura o Lucas fazia faculdade em Londrina e só voltava pra Araraquara nas férias. Pelo que me lembro, de quando soubemos que gravaríamos o disco até o fim das férias tínhamos menos de um mês pra terminar tudo, caso contrário teríamos que esperar meses até a próxima vinda do Lucas. O processo final envolveu uma semana de ensaios que serviram basicamente pro Lucas e pro Diego mostrarem as músicas pro restante da banda e todo mundo se familiarizar com elas. Na semana seguinte aos ensaios, já fomos pro estúdio. Tínhamos da segunda até a sexta-feira daquela semana pra finalizar tudo. Na segunda-feira gravamos a bateria, na terça-feira o baixo e na quarta-feira as guitarras. Os vocais foram gravados nos dois últimos dias. Uma curiosidade foi que Eu e o Diego finalizamos os arranjos de guitarra apenas na véspera de serem gravados.

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Como foi o resultado final do disco?


Rafael Lia O resultado final foi bem bacana. A gente ainda tava bem no início desse lance de tocar e ter banda, nenhum de nós fazia aula de instrumento e por isso ninguém era um músico de mão cheia. Eu nem guitarra tinha (emprestava de amigos). Se você somar isso a correria que foi pra gravarmos, logicamente deixa uma sensação de que dava pra ter feito melhor mas ainda assim foi um disco bem legal. Tivemos música sendo executada em rádio e por conta disso tocamos no Sesc onde fizemos um show apenas com nossas músicas autorais.

Blog Música Boa A Supernova acabou no fim de 2005 após o baterista sair da banda. Vocês mudaram o nome da banda para DK7’s mas não durou muito tempo. Fale um pouco sobre a DK7s e como a Supernova te ajudou futuramente a tocar em lugares maiores e mais importantes com suas futuras bandas?

Rafael Lia

A DK7’s durou pouquinho tempo, acho que fizemos uns três shows. Começamos a trabalhar em músicas próprias, que era o que a gente mais queria fazer naquele momento; no entanto, o Lucas saiu da banda pra fundar o Churrasco Elétrico e o projeto parou ali. Em relação a Supernova, ela teve muita importância pra mim. Foi a primeira vez que entrei num estúdio pra gravar, a primeira vez que toquei música autoral, primeira vez que me ouvi tocando no rádio, primeira vez que subi num palco de Sesc e que toquei em lugares diferentes de Saraus de Colégio. Antes da Supernova, minhas bandas faziam pequenas apresentações de no máximo 30 minutos e dividindo o palco com diversas outras bandas no mesmo evento. Com a Supernova passamos pros bares, pros shows com 2 horas de duração e sendo a única atração da noite. A Supernova trouxe uma experiência totalmente diferente pra mim.


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Você ficou um tempo sem uma banda e só voltou a tocar em 2009 com a “Carcamanos”. De onde veio esse nome e qual era objetivo da banda?


Rafael Lia

A Carcamanos surgiu da seguinte forma: O Diego, guitarrista da Supernova, encontrou um amigo nosso que não víamos há uns anos. Esse cara também tocava guitarra e sugeriu ao Diego que montassem uma banda. Aí o Diego me ligou e me convidou pro projeto e disse que se eu topasse ele passaria então a tocar baixo. Aceitei na hora, mas aí antes mesmo de marcarmos um ensaio o cara que sugeriu a formação da banda precisou mudar de cidade e acabou desistindo da banda. Eu e o Diego decidimos prosseguir com a ideia e fomos atrás dos outros caras pra completar a formação da banda. Quanto ao nome, tiramos do filme “O Poderoso Chefão”. Foi uma ideia do Diego e como nós dois adoramos esse filme, somado ao fato de que incluiríamos no set list uns temas de cinema, decidimos batizar a banda como Carcamanos. O objetivo era basicamente nos divertirmos e tocar sempre que possível, no meu caso, voltar a tocar depois de tanto tempo. Também tínhamos como objetivo trabalhar em músicas autorais que embora não tenhamos gravado, apresentamos algumas delas nos shows. Com a Carcamanos fizemos algumas festa da Unesp e tocamos em alguns bares e festivais.


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O repertório da banda era muito plural e diversificado. Qual era o critério de escolha do set?


Rafael Lia

Todos os quatro integrantes tinham um gosto musical muito parecido. Geralmente fazíamos um sistema em que cada um escolhia uma música de seu gosto pro próximo ensaio e assim íamos compondo o set. A mesma coisa nos shows: com base no número de músicas que iríamos tocar, cada um escolhia suas preferidas, somávamos as autorais e montávamos o show. Sempre fizemos questão de manter as autorais nos sets dos shows.


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A banda tocou regularmente em bares e pubs ate 2012, quando vocês deram uma pausa depois que alguns integrantes mudaram de cidade, porém a banda nunca acabou definitivamente. Conta alguma história engraçada de alguma apresentação de vocês e qual o show mais memorável na sua opinião?


Rafael Lia

Olha, na Carcamanos não faltam histórias engraçadas. Costumamos dizer que criamos uma amizade que ficou maior que a própria banda. Eu conheço o Diego desde que tínhamos 10 anos de idade e só conhecemos o Fábio (Tico) e o Thiago (Tripa) quando formamos a banda, porém nos demos tão bem que criamos uma grande amizade. Com isso o ambiente da banda era muito descontraído. Eu e o Tripa somos capazes de passarmos horas fazendo piada de duplo sentido um com o outro, hahahaha! Uma história boa de apresentação foi uma vez que fomos tocar em um bar em Araraquara. O bar já tava bem caído, em vias de encerrar as atividades e quase ninguém frequentava. Nesse show, o bar tava absolutamente vazio, com exceção de alguns amigos próximos que foram pra nos ver (obrigado, amigos). O Tico, nosso baterista, aproveitou o ambiente praticamente vazio (e umas cachaças a mais) pra relaxar e fazer o que ele bem entendesse na bateria. O cara acho que entrou em transe e não terminava mais as músicas. Todo final de música tinha uma jam porque o cara não parava mais de tocar e a gente tinha que ficar improvisando! Hahahaha! Quanto a show memorável posso destacar nossa participação no Feban (Festival de Bandas da Unesp), em 2010. Foi a primeira edição desse festival e na seletiva fomos uma das bandas escolhidas pra tocar. Foi um show bem legal, num evento super bem organizado. Mas também fizemos umas festas bem legais da galera da Unesp Araraquara e bons momentos no antigo Bombar.


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No fim de 2011, você e o Luis Felipe montaram a Mucky Fingers, que é um cover da banda inglesa Oasis. Como surgiu a ideia do projeto e de que maneira se deu a formação da banda?

Rafael Lia

Nessa época o Luís Felipe era meu professor de inglês. Nas aulas a gente sempre trocava ideia sobre música e eu sabia que ele curtia muito Oasis. O Luís não tinha banda mas ele já estava curtindo esse lance de cantar e salvo engano estava até fazendo aulas de canto. Numa dessas nossas conversas sobre música surgiu o papo de formar uma banda pra tocar Oasis. Descobrimos que ia ter um evento no Arte & Bola, em Araraquara, e perguntamos pro Henrique Rossetti (dono do Bar) se a gente poderia tocar umas 5 músicas e ele, muito, gentilmente, deixou. Chamei meu fiel companheiro de bandas (Diego), que é tão doente por Oasis quanto eu e o Luís convidou dois amigos dele: Lique (guitarrista) e Bola (Baterista). Fizemos uns 2 ensaios e nos apresentamos nesse evento, ainda sem formato de cover como viríamos a fazer depois. O rolê foi legal, nos divertimos e decidimos continuar.


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Em 2012 a banda tocou no Oasis Day, que é um vento que ocorre anualmente no Brasil inteiro e é promovido pelo site Oasis News. A Mucky Fingers tocou em São Paulo representando o estado inteiro. Qual foi sensação de tocar num evento tão importante como esse, mesmo com tão pouco tempo de banda?


Rafael Lia

O Oasis Day foi um capítulo memorável pra mim e acredito que pros outros caras da banda. Esse evento acontece todo ano e envolve várias cidades/estados diferentes. Mandamos um e-mail despretensioso pro Alison Guimarães, dono do Oasis News e idealizador do evento e acabou que fomos convidados pra fazer a edição da capital Paulista, considerada a principal sede do evento. Ali foi algo totalmente diferente do que eu nunca tinha vivido antes. O evento aconteceu num Pub na rua Augusta e tocamos pra uma galera FANÁTICA. Os caras eram tão malucos que se comportavam como se estivesses vendo o Oasis de verdade. Inesquecível. Era um pub bem pequeno e ficou maior galera pra fora porque não cabia mais gente lá dentro.


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Em 2013 a banda faz outro show memorável no evento “Cover Now”, realizado anualmente pelo SESC Araraquara. Em 2017 a banda retornou ao evento com outra apresentação importantíssima. Qual o impacto dessas duas apresentações na sua vida pessoal e artística?


Rafael Lia

Na minha opinião, tocar no SESC é um prêmio à toda dedicação que você tem com a sua banda. Quando você toca em um lugar onde grandes artistas se apresentam, não tem como não sentir uma pontinha de orgulho em estar ali. Eu não sou músico profissional, então aquele primeiro Cover Now (2013) foi a maior plateia à quem me apresentei. Foi muito gratificante tocar pra tanta gente, em um lugar onde a arte é tratada com tanto carinho e profissionalismo, como é feito no SESC. Em 2017 teve um ponto interessante: a banda nem estava na ativa e fazíamos um ou dois shows no ano, apenas pra matar a saudade mesmo. Nesse caso, fazia um pouco mais de um ano que a gente não tocava, mas o SESC fez uma pesquisa onde perguntou ao público quais as bandas que eles gostariam que voltassem a participar do Cover Now, dentre todas que já haviam se apresentado ao longo dos anos deste evento. Pra nossa surpresa, fomos uma das quatro bandas mais votadas e tivemos o prazer de pisar no palco do SESC novamente.

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A partir de 2014 a banda diminuiu o ritmo de shows mas nunca acabou oficialmente e hora ou outra vocês aparecem com um show surpresa, como foi o caso da apresentação feita no Pub Corleone em 2018. Qual o futuro da Mucky Fingers?


Rafael Lia

Tivemos uns dois anos intensos em que nos apresentamos bastante nos bares da região. Infelizmente as coisas foram mudando, uns bares fechando, a gente relaxando um pouco no sentido de buscar novos lugares pra tocar e quando menos percebemos a Mucky Fingers foi ficando de lado. O Diego mudou de cidade, os outros caras têm vários projetos legais e seguem na ativa e eu to curtindo umas férias. A Mucky Fingers tá tipo um LP velho guardado numa gaveta. Uma hora alguém acha, tira a poeira e bota pra tocar e eu espero que seja num futuro bem próximo.


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Você tocou regularmente em bares durante pelo menos 15 anos. Quais as maiores dificuldades encontradas e os momentos mais prazerosos dessas apresentações?


Rafael Lia

Não digo regularmente porque nessas idas e vindas de bandas houve uns longos períodos sem fazer nada, coisa de quem tem a música como lazer e não tanto como trabalho, hahaha! Por já ter tocado bastante e ter alguns amigos que tocam profissionalmente, sei que há muitas dificuldades. Na minha opinião, uma das partes mais difíceis é o tratamento que alguns donos de bares têm com os músicos. Muitas vezes é difícil negociar um cachê justo e já ouvi muitas histórias complicadas de amigos que tocam em barzinho e recebem um tratamento longe do ideal. Há exceções, mas tem muito cara que não leva a sério o trabalho do músico. Pra mim, os momentos mais prazerosos são em cima do palco. Estar nesse ambiente, tocar o que você gosta e principalmente pra uma plateia animada não tem preço. Também é muito legal quando você acaba o show e vem alguém trocar uma ideia, fazer um elogio e dizer que gostou da apresentação.

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Conte algum perrengue que você passou com alguma das bandas.


Rafael Lia

Teve uma vez, tocando com a Mucky Fingers, que estourou uma corda sol da minha guitarra logo no início do show. Eu tinha uma reserva, troquei e adivinhe só? Estourou de novo (tinha uma rebarba na ponte que estava causando o problema). Não tinha mais o que fazer e me restou retirar a corda Sol do meu violão e colocá-la na guitarra. Cada bend era um drama. Toquei a primeira parte do show morrendo de medo de exagerar no bend, estourar a corda e ficar na mão. Quando fizemos um intervalo, na metade do show, corri pra casa e busquei minha outra guitarra. Eu sempre levava a outra guitarra como step mas justo nesse dia ficou pra trás. Lei de Murphy, né?

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Rafa, queria mais uma vez agradecer pela disponibilidade para o nosso blog! Foi muito divertido e espero falar de você por aqui por muitas vezes ainda! Grande abraço...

Rafael Lia

Gui, eu que agradeço o convite. Espero que você tenha gostado do resultado final e saiba que pode contar sempre comigo. Parabéns pelo blog e boa sorte nas próximas entrevistas. Forte abraço.



Capa do primeiro e único álbum da banda Supernova intitulado de "Pelos Satélites" (2005)



Supernova em apresentação no SESC



Primeira apresentação da banda Carcamanos, em 2009



Carcamanos em apresentação no extinto Bombar, em 2012



Primeiro show da Mucky Fingers no Arte e Bola Café, ainda sem caracterização dos integrantes.



Mucky Fingers no Oasis Day, em 2012



Mucky Fingers em apresentação no SESC, em 2013



Mucky Fingers no SESC, em 2017