• Guilherme Moro

Entrevista com o vocalista Luigi Lipe

Atualizado: 15 de jul. de 2020

Luigi Lipe é um dos vocalistas mais reconhecidos da cena rock araraquarense, tanto pela sua técnica vocal quanto pelo seu carisma. Sempre com diversos projetos musicais, o cantor também dá vida às suas poesias e desenhos em seu projeto “Diz: Corra!”. Atualmente na ativa com as bandas No Hands, Yo Mamma, The Teachers e Barconistas, ele conta um pouco da particularidade de cada projeto e dos momentos mais marcantes de sua carreira.



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Luigi é um prazer poder entrevistá-lo! Obrigado pela sua disponibilidade. Para começar esse bate-papo, gostaria de começar perguntando como você se interessou pela música e se antes de se tornar um vocalista você tocava ou praticava outros instrumentos.



Luigi

É sempre um prazer responder a entrevistas. Sou eu quem agradeço a oportunidade! Meu interesse pela música num sentido mais ativo, não apenas como ouvinte, apareceu quando amigos de escola e primos meus começaram a fazer aulas de determinados instrumentos na época da adolescência. Tais pessoas me mostravam as músicas com um outro olhar e eu sentia que aquilo melhorava a qualidade da minha apreciação daquelas obras de arte. Fui também percebendo que tocar um instrumento, além do prazer de reproduzir o que os ídolos faziam, poderia ajudar a aumentar minha interação com conhecidos do meu cotidiano e consequentemente trazer um bem estar pro meu convívio social. Não à toa, minhas melhores amizades foram iniciadas por afinidade musical e duram até hoje. Quando entrei nessa onda dos instrumentos comecei com os teclados, pois queria entrar na banda de uns amigos e era raro encontrar quem escolhesse esse instrumento. Isso durou uns 4 anos. Depois disso, só fui voltar a tentar instrumentos diferentes quando iniciei aulas de canto mesmo, me aventurando no violão e no contrabaixo.



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Quando você percebeu que o canto seria sua principal ferramenta artística?



Luigi

Fora os momentos em corais de igreja e karaokês, acredito que foi quando resolvi fazer uma aula de canto e a professora disse que eu tinha ouvido bom para reproduzir as notas de forma afinada, o progresso era rápido e perceptível, então fui me soltando. Ainda que eu precisasse de alguns ajustes na respiração, nas técnicas em geral, nos vícios e, principalmente, na timidez, a cada aula eu me alimentava da possibilidade de mexer com as pessoas através do canto. Depois da primeira apresentação num daqueles festivais de escolas de música eu tive certeza que era possível dar continuidade a esse sonho.



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A primeira banda em que de fato você foi vocalista foi a Mucky Fingers (Oasis Cover). Ela foi fundada por você e o guitarrista Rafael Lia. Como surgiu a ideia de montar a banda?



Luigi

Quando comecei a dar aulas de Inglês peguei algumas turmas de um colega professor (muito fã de Oasis) e numa dessas turmas estava o Rafael, também grande fã da banda. Eu estava curtindo muito o som da banda que havia acabado recentemente e vivíamos lamentando esse fim precoce do grupo durante as aulas. Um dia ele sugeriu que montássemos um grupo para tocar apenas cinco músicas num festival de rock de um bar da cidade, sem compromisso. Fomos atrás de amigos músicos que topassem e, apesar de eu lembrar que o primeiro show tenha sido um desastre da minha parte, resolvemos continuar. Mais ensaios, mais agenda. De repente estávamos com apresentações mais sólidas e um material mais completo. Viramos uma banda cover.



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Qual a importância da Mucky Fingers na sua vida artística? Consegue se lembrar de algum show marcante?

Luigi

Foi a minha primeira banda como vocalista. Foram as primeiras experiências boas e ruins como peça central de uma banda. Foi quando venci o medo do palco e a timidez na hora de falar com o público. O show mais marcante da Mucky Fingers pra mim foi quando tocamos em um evento oficial de tributo ao Oasis, chamado Oasis Day, num pub em plena Rua Augusta com a casa entupida de fanáticos pela banda. Foi como se eu tivesse entrado num portal e virado Liam Gallagher em Manchester ou algo assim.



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Liam Gallagher é um vocalista com características extremamente pessoais. Quais as maiores dificuldades de interpretá-lo em uma apresentação?



Luigi

Acredito que o que mais o caracteriza como único são justamente os defeitos. Tive que aprender a ficar todo torto, andar de jeito engraçado, cantar forçando a garganta de um jeito diferente, mais rouco, mais agressivo. É todo um temperamento diferente inclusive. A maior dificuldade ao interpretá-lo é realmente apagar qualquer possível traço da minha personalidade durante a apresentação.



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A banda No Hands foi formada em Araraquara-SP no início dos anos 2000 e sofreu um hiato de 2006 a 2013. Após retornar as atividades, em 2014, a banda lhe convidou para integrar os vocais da mesma. Como foi feito o convite?



Luigi

O convite foi feito pelo Facebook. Eu era um conhecido distante de um dos integrantes da banda. Ele ficou sabendo que eu estava cantando em bandas de rock. Foi basicamente uma indicação de conhecidos na área da música. A conversa pra entrar na banda era de que eles precisavam de um vocalista dedicado, para um projeto ambicioso e com músicas já prontas, além de já terem algum investimento para gravações e uma possível turnê. Quem cantava antes na banda era o King, o atual guitarrista. A ideia é que ele se dedicasse exclusivamente ao instrumento, já que estava como vocalista provisoriamente.



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Ainda em 2014, através de um concurso que teve como júri membros da Secretaria da Cultura, a No Hands teve a música "S.E.R (Sob o Efeito do Rock)" escolhida para ser o tema do festival Araraquara Rock daquele ano. Qual foi a sensação de conseguir um feito tão importante com a banda, mesmo com pouco tempo integrado a ela?



Luigi

A sensação foi de que estávamos no caminho certo e que todas as nossas escolhas estavam levando para coisas maiores. Pareciam realmente grandes passos em direção a algum tipo de sucesso. Particularmente, lembro de gravar a voz da demo dessa música dentro do meu armário envolto num cobertor pra melhorar o som. Tudo no improviso. E semanas depois estávamos num estúdio gravando e filmando clipe para mesma música. Dava até uma certa aflição, porque parecia que tudo estava acontecendo mais rápido do que esperávamos.



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Para coroar o ano de 2014, no dia 18 de Novembro daquele ano, a banda assina contrato com o Estúdio Midas, que pertence ao consagrado produtor Rick Bonadio. Como surgiu a oportunidade de ser produzido por um nome tão relevante como esse?



Luigi

O contato foi conseguido pelo baterista da banda que encontrou o Rick num restaurante em São Paulo por acaso e, ao reconhecê-lo, trocou contatos e indicou o som da banda. Como tínhamos a intenção de investir alto no projeto, juntamos uma grana e mergulhamos de cabeça no sonho.



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Por lá vocês gravaram um EP. Como foi o processo de arranjo e composição desse trabalho? O Rick Bonadio presenciou as gravações?



Luigi

A No Hands tinha excelentes composições já quando eu entrei na banda. Estava tudo pronto mesmo, letra, estruturas, sonoridade. Tínhamos acabado de fazer um registro dessas autorais num estúdio da cidade, mas numa intenção mais underground e agressiva do que mainstream. Lembro que enviamos em torno de dez músicas dessa leva hardcore para a equipe do Midas e o Rick escolheu as quatro melhores na visão dele para gravar. A gente fez a pré-produção com a presença do Rick, decidindo sobre os moldes de cada música, o que mudaria e o que ficaria, desde a letra até os timbres dos instrumentos. Com ele decidimos transformar a sonoridade em algo mais comercial. Durante as gravações quem ficou no comando mesmo foi o Giu Daga, produtor musical, diretor artístico e engenheiro de áudio, ganhador de Grammys com os Titãs, CPM22 e NxZero. Ele é praticamente uma extensão do Rick na parte mais braçal da gerência e produção de rock do Midas Music.



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Em 2015 o EP é lançado e o clipe da música "Acredite" ganhou um lançamento nacional na MTV. Após cinco anos do lançamento, como você avalia o resultado final desse trabalho?



Luigi

A mensagem presente na letra dessa música foi o que nos motivou a seguir em frente sempre. A gente sempre vai acreditar que é possível. Talvez seja por isso que conseguimos chegar onde chegamos. Apesar de não ser a música de maior sucesso nos shows da banda, ela provavelmente é a força matriz dos integrantes e do carinho da galera das escolas por nós.



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Ainda em 2015, a banda iniciou o projeto “No Hands Na Sua Escola”. Como surgiu a ideia de realizá-lo?



Luigi

Tínhamos uma música com uma mensagem positiva. Tínhamos disposição para tocar de graça ou até gastando dinheiro em troca de divulgação de um trabalho de qualidade assinado por Rick Bonadio. Tínhamos sinergia. Sabíamos muito bem que nosso público estaria nessa faixa etária dos estudantes, então foi só formalizar a proposta e ser insistente. Lembro que nosso guitarrista Ricardo ligava todos os dias para escolas do Estado de São Paulo inteiro tentando fechar datas em escolas e outros eventos. Quando vimos que as escolas se empolgaram mais com o projeto do que nós esperávamos, decidimos ver até onde ia. Chegamos a tocar em 50 cidades diferentes, mais de 100 escolas, tudo no espaço de um ano praticamente.



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Com o projeto, a banda rodou escolas de São Paulo e também de outros estados. Qual a importância desses shows realizados em escolas na sua vida pessoal e profissional?



Luigi

As dificuldades e os prazeres desse projeto me fizeram uma pessoa mais paciente e experiente, menos introvertida e pessimista. No lado profissional, foram tantos contatos. Ganhei visibilidade, reputação, oportunidades para outros projetos. É imensurável a influência desses momentos na minha vida. Deixei de ser um Luis Felipe qualquer e me tornei o Luigi Lipe, uma figura pública e artística (ainda que em pequena escala). Realmente considero um divisor de águas.



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Dos inúmeros shows realizados com o projeto, qual é o mais marcante para você?



Luigi

Essa pergunta é a mais difícil de responder. Cada pequena apresentação, cada pessoa, cada reação, erros, surpresas. Tudo, independente de onde tenha sido, foi muito marcante. Consigo contar uma pequena história sobre cada um dos lugares onde passamos. Acho que guardo com um carinho especial as vezes que tocamos nas escolas públicas, principalmente quando envolvia crianças muito novas. A euforia delas era tão indescritível que parecia que estávamos vivendo um delírio coletivo.



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Você é formado em Letras pela UNESP e dá aulas de Inglês e Alemão. Como você insere música em suas aulas de maneira didática?



Luigi

Quando tenho que explicar algum tópico gramatical ou quando quero que os alunos memorizem determinado vocabulário, dou um jeito de mostrar pra eles nomes de músicas ou trechos delas que são conhecidos por todos para que associem e criem maior familiaridade com a Língua Inglesa. É quase um apelo sonoro afetivo.



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Além da No Hands, atualmente você é vocalista das bandas: The Teachers, Barconistas e Yo Mamma. Fale um pouco de cada uma delas e de suas particularidades.



Luigi

The Teachers é um projeto de professores com grande afinidade musical. Toca o que der vontade, sempre num formato rock.

Barconistas é um projeto de trio acústico, com amigos de infância. Toca rock e pop que algum dia foi marcante no cenário mundial ou nacional. Adequado para bares e ambientes mais calmos.

Yo Mamma é um projeto de covers internacionais dos clássicos do rock de todos os tempos. É onde eu testo meus limites.



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Além de professor e músico, você tem um projeto como poeta e desenhista intitulado de “Diz: Corra!”. De onde surgiu esse interesse pela poesia e pelo desenho?



Luigi

Durante o curso de Letras na Unesp eu criei o hábito de olhar para as palavras de uma forma diferente. Nunca fui muito fã de poesia, nem um leitor muito assíduo. Gostava de Leminski, dos concretistas, também de Manoel de Barros. Sempre admirei a inteligência por trás de qualquer criação literária e até publicitária. Em uma época meio confusa e complicada da minha vida pessoal eu resolvi que devia escrever sobre o que estava passando na minha cabeça e mostrar um pouco de como eu enxergava palavras do cotidiano. Desenvolvi a ideia dos desenhos depois disso, em busca de um apelo às mídias que os jovens consomem mais atualmente. Essa parte de desenvolvimento do desenho foi na raça mesmo. Sem técnica, nem estudo. Apenas na observação e inúmeros rascunhos com canetões permanentes.



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Como é feito o processo de autoria desses desenhos e poemas?



Luigi

Normalmente uma palavra aparece pra mim com vários significados e eu tento ir a fundo nessas possibilidades, pesquisando bastante sobre qualquer que seja o tema. Faço testes de trocas de letras e sílabas. Penso em sinônimos. Penso no som das rimas. Nas quebras e nas junções que pretendo fazer na cabeça do leitor. Depois organizo tudo e penso num desenho que crie mais sentidos ou complemente o poema. Quando comecei era tudo numa folha sulfite com canetão. Depois eu escaneava e editava no computador. Dava um trabalho. Atualmente estou usando um tablet e já fazendo todo o processo digitalmente.



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Você tem inúmeros projetos. Como conciliar o seu tempo para atender a demanda de cada um deles?



Luigi

Essa vida multiuso me tornou uma pessoa obrigatoriamente muito organizada. Além disso, aprendi a dizer não para inúmeras pequenas e grandes coisas de acordo com as minhas possibilidades. Inclusive quando sinto que estou no limite da minha disponibilidade não penso duas vezes: abro mão do que está sendo menos proveitoso. Sorte minha ter deixado abertas tantas portas na vida e poder escolher agora entre elas qual fechar. Ao mesmo tempo que lamento a falta de tempo, agradeço por ela todos os dias.



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Para encerrar nossa entrevista, gostaria que você falasse dos planos futuros.



Luigi

Tenho vontade de lançar um livro dos poemas. Tenho intenção de fazer sons autorais com minhas bandas covers. Estamos pensando em reanimar a No Hands em 2021. A Mucky Fingers também está com essa vontade.

A verdade é que a minha vida não permite muitos planos atualmente, pra ser sincero. Vou vivendo e tentando fazer as escolhas certas dentro desses meios. Estou há dez anos dividido entre dar total prioridade pra arte ou pra carreira de professor. Acho que isso nunca será possível. A balança sempre pesa um pouco mais a favor da estabilidade. Certo mesmo é que continuarei fazendo essas duas coisas que mais me dão satisfação na vida profissional até a hora que minha saúde física e mental permitir.



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Luigi, foi um prazer poder bater esse papo com você! Agradeço novamente a atenção e paciência conosco.


Luigi Parabéns pela iniciativa da entrevista e obrigado pelas perguntas. Foi um prazer reviver um pouco de tudo que eu vivi e tentar colocar brevemente pra vocês aqui na entrevista.

Estou à disposição. Um grande abraço a todos!



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Luigi interpretando Liam Gallagher em apresentação (Foto: Reprodução/Facebook)

(Foto: Reprodução/Facebook)

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Luigi em foto de divulgação da No Hands (Foto: Reprodução/Facebook)



Luigi em foto de divulgação da Yo Mamma (Foto: Reprodução/Instagram


Luigi em foto de divulgação da The Teachers (Foto: Reprodução/Facebook)

Luigi com a Mucky Fingers (Oasis Cover) em apresentação no SESC Araraquara

(Foto: Reprodução/Facebook)