• Guilherme Moro

Entrevista com Milton Guedes: Músico de Sandy & Júnior, Lulu Santos e grandes nomes da música

Músico, cantor e compositor: Milton Guedes é simplesmente um dos mais requisitados artistas do Brasil, tanto em estúdio, quanto em cima dos palcos. Com um currículo extenso, ele gravou quatro álbuns de estúdio, fez trilhas de novela, já participou de shows e gravações com praticamente todos os medalhões da música brasileira, além de quase dois mil solos catalogados (Sax, Gaita, Flauta e Assovio). Em nosso bate-papo, o músico contou um pouquinho sobre sua grande trajetória, falou de momentos marcantes e relatou algumas histórias por trás de alguns dos projetos do qual fez parte.



Blog Música Boa

Milton é uma honra para o nosso blog poder ter um entrevistado especial como você.



Milton Guedes

O prazer é todo meu!



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Seus irmãos tiveram muita influência em seu gosto musical, porém você começou a tocar um pouco tarde, com 18 para 19 anos. Antes de ser completamente “tomado” pela música, sua maior paixão era andar de skate, fato que o levou a ganhar alguns campeonatos na modalidade. Conte um pouco de todo esse seu início, como você começou a tocar e o porquê da escolha do saxofone como instrumento principal.



Milton Guedes

O Skate era algo que me tirava de casa. Era muito tímido, o que talvez tenha atrasado meu envolvimento total com a música, mesmo tendo influências diretas em casa. Minha irmã, Fátima Guedes, que cantava em corais e era mais MPB, me colocou em um coral mirim na mesma época que eu ganhava campeonatos de skate (cheguei a ter uma equipe patrocinada pela Pepsi). Já meu irmão, Marco Guedes, que era o lado rock’n roll da família. Ele era baterista e me levava pra assistir seus shows, com vários artistas do rock Brasília. Alguns que acabaram ficando famosos.

A música já era muito importante e inevitável, só faltava o “empurrão”, que acabou vindo do meu vizinho saxofonista (Sr. João Batista), maestro da banda da Marinha que estava sempre tocando quando eu voltava do colégio. Um dia, pedi para vê-lo tocar e ele me incentivou a ter aulas e acabei me apaixonando pelo instrumento. Tocava horas por dia.



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A banda Pôr do Sol é uma banda na qual além de saxofonista, você era vocalista. No ano de 1984 a banda gravou um compacto, lançado pela Polygram, que continha as canções “Pro Que Der e Vier” e “Um Dia Melhor’’. Você ainda era um músico muito novo quando gravou essas duas canções. Qual a importância desse projeto e dessa banda, tanto na música quanto na vida pessoal?



Milton Guedes

A banda Pôr do Sol foi idealizada por meu primo, Guilherme Lassance. Ele já tocava nos festivais da cidade, amava os Beatles e os grupos vocais. Na época, éramos fascinados pelo Boca Livre e Roupa Nova. Formamos uma banda com amigos e meu irmão na bateria para criarmos nossas canções. Após dois anos, a banda se transformou com a saída do meu primo e com uma nova formação mais pop-rock fomos convidados para gravar um compacto pela BMG-Ariola, que era um selo importante.

Fomos ao Rio fazer uma audição na gravadora e eles acabaram escolhendo estas duas músicas, compostas por mim. Eu tinha acabado de aprender a tocar sax, e foi tudo muito inusitado e rápido.



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Você fazia apresentações solo em barzinhos de Brasília, que geralmente ficavam localizados no Centro Comercial Gilberto Salomão. Em um desses shows, no ano de 1986, Oswaldo Montenegro viu você se apresentando e se encantou pelo seu talento como instrumentista e cantor. Conte um pouco desse encontro entre vocês.



Milton Guedes

Com o fim da minha primeira banda, passei a tocar apenas por hobby com amigos que já se apresentavam nos bares do Gilberto Salomão, em Brasília. Era a minha chance de exercitar o sax, além da gaita e flauta.

Eram shows lotados e em uma noite de sexta feira, com casa cheia, Oswaldo apareceu e nos viu tocar durante muito tempo. Ao final da apresentação, ele me convidou para um papo em sua casa sobre sua nova peça teatral e disse que eu me encaixaria super bem no projeto, mas que precisava que eu fosse para o Rio de Janeiro.

No dia seguinte, durante esta reunião, eu estava bem empolgado pois Oswaldo já era bem famoso. O pai dele, que era seu produtor, me estendeu uma passagem aérea dizendo que na segunda feira (isto foi no sábado), eu iria para o primeiro ensaio no Rio. Fiquei assustado, pois trabalhava num banco e não estava preparado para algo tão inusitado.

Oswaldo me olhou e disse : “Não pensa. Diga sim e vamos!”. Foi assim que tudo começou.



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Qual a importância do Oswaldo na sua carreira e qual a música mais marcante que você gravou com o artista?



Milton Guedes

Oswaldo foi fundamental em minha carreira. Primeiro por me tirar da zona de conforto, me fazer dizer sim para uma viagem inusitada, que acabou sendo bem sucedida e por me colocar sempre em destaque em suas peças e shows.

Gravei muitas canções com o Oswaldo, mas a música que mais marcou essa parceria foi Lua e Flor, tema de novela Global que acabou abrindo muitas portas para mim como instrumentista.



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A canção “Taxímetro” conta com um solo de assobio sensacional, feito por você. Como você desenvolveu essa técnica que virou umas de suas marcas registradas e como surgiu a ideia de acrescentar um solo de assobio nessa canção?



Milton Guedes

Aprendi a assoviar na rua, caminhando cedo para a escola e ouvindo quase sempre um zelador de um prédio por onde eu passava, que assoviava lindamente. Prestava atenção nisso e no canto dos pássaros do cerrado brasiliense. Era o meu iPod, meu Walkman. Assoviava sem parar e acabei desenvolvendo minhas próprias técnicas.

Com isso, gravei muitas trilhas de novelas, cinema e etc.

Oswaldo aproveitava tudo o que seus músicos-atores podiam oferecer artisticamente, e sabia do meu assovio.

Me chamou pra improvisar algo nessa canção “Taxímetro”, que era da peça "Os Menestréis" e falava de um andarilho que assoviava na rua.

Acabei gravando esse solo que marcou mais uma parceria do Oswaldo e Mongol.



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Outra parceria de longa data e extremamente importante para sua carreira é a com o cantor Lulu Santos. Como você o conheceu e quais os melhores momentos que você passou ao lado do Lulu?



Milton Guedes

Com minha mudança para o Rio, passei a acompanhar alguns amigos nos bares da cidade. Uma das bandas que conheci, a Central Africana, me chamou para gravar uma canção com eles.

No mesmo estúdio, RCA em Copacabana, Lulu finalizava o disco “Toda Forma de Amor” e me viu tocando com eles na sala ao lado.

Lulu tinha acabado de finalizar uma turnê e estava montando uma banda nova. Me abordou e perguntou se eu conhecia seu trabalho. Eu ri, já que Lulu era bem conhecido na época (88). Trocamos telefone e esperei por quase um mês um telefonema que acabou não vindo. Achei normal, já que eu não era conhecido.

Eu me apresentava num bar do Leblon, o Gig Saladas, onde músicos diversos se apresentavam. Ao fim do show, veio um cara falar comigo: era Paul de Castro, guitarrista da banda do Lulu, dizendo que ele havia perdido meu telefone e que era uma sorte estarmos ali naquele momento.

No outro dia, Lulu me telefonou e marcou uma audição, onde eu cantei várias de suas músicas. Foi então, que acabei entrando na super banda Auxílio Luxuoso, onde fiquei por quase 10 anos.



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Lulu Santos é conhecido por sempre dar muito espaço à seus músicos. O que essa liberdade artística acrescentou a você profissionalmente?



Milton Guedes

Tive a sorte de ter conhecido dois artistas assim, Oswaldo e o próprio Lulu.

Sempre fui muito eclético musicalmente, acredito que por conta dos meus irmãos. Eu me identificava muito com as canções do Lulu, me sentia muito em casa. Lulu é dos poucos artistas solo que trabalha como se fosse uma banda. Liberdade total para todos em cena.

Acabávamos repetindo cenas que improvisávamos nos shows, viravam marcas. Isso fazia o público enlouquecer, além da força das canções com o show sempre cheio de energia.

Isso, com certeza, abriu mais portas, pois os artistas com quem trabalhei depois queriam aquele músico que se movimentava e tocava vários instrumentos. Queriam o Milton Guedes e não mais um saxofonista apenas. Foi muito importante pra minha performance de palco, até hoje.



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Milton, no ano de 1993 você lançou o seu primeiro álbum solo cujo nome é homônimo. Após anos integrando bandas de outros artistas e, consequentemente, tocando um repertório que não é seu, como foi voltar a gravar canções que tem mais sua identidade musical? Depois de quase 27 anos do lançamento, como você avalia esse álbum?



Milton Guedes

Tocar, principalmente com o Lulu, me preenchia muito como artista. Eu me sentia parte daquele show. Aquilo me supria de várias formas, o que atrasou demais a minha busca por uma carreira solo.

Sempre foi bem difícil pra eu achar uma identidade própria no meio do meu ecletismo, ainda mais com influências tão marcantes como a do Lulu, por exemplo. Tanto que a gravadora propôs chamá-lo para produzir este primeiro trabalho.

Me sentia tranquilo com o Rei do Pop produzindo meu disco, mas sinto que podia ter exigido mais de mim. Devia ter proposto mais canções de minha escolha, mas era praticamente meu primeiro trabalho e eu estava nas nuvens com a possibilidade. Hoje mudaria a tonalidade de algumas canções. Algumas soam agudas demais, mas é um ótimo álbum.



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No ano de 1997, após quase 10 anos tocando na banda de Lulu Santos, você a deixa para se dedicar integralmente a sua carreira solo e ao seu segundo álbum de estúdio, também homônimo. A canção “Sonho de Uma Noite de Verão”, teve grande execução nas rádios de todo país. Fale um pouco sobre o processo de gravação e arranjos das músicas desse álbum.



Milton Guedes

Este álbum traduz bem o meu ecletismo. Abro com uma canção leve do Carlinhos Brown, tem canções de Zélia Duncan, Christiaan Oyens e uma regravação do primeiro compacto do Lulu (Satélite do Amor). Este disco também tem algumas autorais, como “Sonho de Uma Noite de Verão”, que foi feita em homenagem à “Garota Nacional”, do Skank, de quem sempre fui fã.

Claro que a gravadora escolheria a mais “chiclete”, o que não foi ruim, pois a música “Sonho de Uma Noite de Verão” estourou muito rápido nas rádios. Infelizmente a minha gravadora, a EMI, passava por uma intervenção internacional pela EMI inglesa e muitos projetos foram congelados. O meu foi um deles, no auge do sucesso crescente da minha música.

Foi um choque, pois as gravadoras costumavam dar todo o suporte aos artistas nesta época. Acabei sem experiência em gerir minha própria carreira, por estar sempre em turnês de outros artistas, perdendo o timing deste lançamento.

Foi bem difícil perder um álbum com tantas canções especiais pra mim.



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Considera esse álbum, o melhor de sua carreira solo?



Milton Guedes

Definitivamente, é meu melhor álbum.



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No ano de 1999 você assinou como um dos compositores da canção “Baby, Eu Já Sabia”, do álbum “As Quatro Estações” , lançado pela dupla Sandy & Junior. Ali se iniciava uma grande parceria entre você e os cantores. Como você os conheceu e começou a inserir suas composições nos álbuns da dupla?



Milton Guedes

Gravei muitas trilhas para novelas e algumas para o seriado Sandy & Junior.

Acabei compondo “Baby Eu Já Sabia”, por encomenda, para a dupla. O convite veio dos colegas Álvaro Socci e Claudio Matta que acabaram virando parceiros.

Logo depois do sucesso desta música, me encomendaram mais canções e acabei compondo várias para a dupla.

Como eu já havia gravado algumas vezes com Chitãozinho e Xororó, a aproximação com a dupla aconteceu quando Xororó me convidou para uma participação no final da turnê "Quatro Estações". Acabei fazendo parte de algumas turnês da dupla.

Foi uma experiência nova e interessante.



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No ano de 2001 você lançou seu álbum, intitulado de “Cinema”. Como surgiu a ideia de fazer um disco só de regravações, executadas de maneira instrumental?



Milton Guedes

A gravadora, Abril Music, me convidou para um projeto instrumental e idealizaram um disco com trilhas famosas e pops de cinema que tinham a ver com meus instrumentos.

Fizemos as escolhas juntos e foi um dos discos mais rápidos que já fiz, com a parceria dos amigos Jongui e Sacha Amback. Gravamos todos os instrumentos e em algumas semanas entregamos todo o projeto. Adorei fazer este disco, era a minha primeira experiência instrumental.



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Em 2002 você entrou para a banda de Sandy & Junior e gravou aquele histórico DVD, no Maracanã lotado. No repertório do show, havia duas músicas de sua autoria: "A Gente Dá Certo" e “Cai a Chuva / Me Diz (Tease Me)”. Fale um pouco desse show e como foi ver um estádio inteiro cantando a plenos pulmões duas canções escritas por você?



Milton Guedes

Tocar com Sandy & Junior era uma aula de profissionalismo, da parte deles e da equipe. Foi uma experiência marcante e de muito aprendizado, além da amizade com pessoas especiais.

Quase ao final da turnê, com o show bem à mão, gravamos o DVD no Maracanã que teve a maior lotação de um artista brasileiro na época. Foi extremamente gratificante ver um público tão grande e animado cantar minhas músicas.



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Uma passagem interessante deste show é quando em “Cai a Chuva / Me Diz (Tease Me)” você e Junior dividem um solo de saxofone. Foi você quem o ensinou a tocar sax? Conte as histórias por trás desse momento marcante.



Milton Guedes

Junior é um dos artistas mais musicais que conheço. Toca qualquer coisa. Tem facilidade pra tocar tudo. Ele havia ganhado um saxofone há um tempo e acabei o incentivando a tocar. Sugeri que tocássemos o solo de “Cai A Chuva” juntos e que ficaria demais em cena. Ele se animou e parecia já saber tocar sax. Foram apenas duas aulas e algumas dicas e ele se preparou para o show, foi um momento incrível.



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Fale um pouco sobre seu trabalho nos DVD’s “RoupAcústico” e “RoupAcústico 2”, da banda carioca Roupa Nova, lançados respectivamente em 2004 e 2006.



Milton Guedes

O Roupa Nova é uma das nossas super bandas. Muita gente não tem ideia de quantos artistas eles já gravaram e produziram. Eu tive a sorte de gravar muitas coisas com eles e eles me convidaram para o primeiro DVD Acústico. Era um risco, nem eles sabiam o que poderia acontecer. Fiquei lisonjeado de ser o “sétimo” Roupa Nova neste DVD e tocar as músicas que eu tanto gostava desde adolescente com minha bandinha em Brasília.

Um privilégio fazer parte desta história, que acabou sendo super bem sucedida e com isso apareci muito para um público novo pra mim. O mesmo ocorreu com o DVD 2.



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A banda Soul Funk é um projeto que durou de 2004 a 2007, onde vocês faziam um mix de músicas nacionais e internacionais com uma roupagem nova e criativa. Fale um pouquinho desse projeto no qual você era vocalista e que tinha uma sonoridade muito bacana.



Milton Guedes

No meio da turnê DNA, acompanhávamos o crescimento do Junior como músico, principalmente. O instigávamos a ouvir de tudo. Ele já era apaixonado pela bateria e pela guitarra.

Saíamos na noite de Sampa vendo bandas e observando o interesse do Junior em fazer algo diferente do que ele fazia com a dupla. Era um crescimento natural e ele propôs que fizéssemos uma banda pra levar som e exercitar este lado baterista de uma forma despojada e sem compromissos.

Acabamos montando a Soulfunk, que era a mesma banda que acompanhava a dupla nos shows.

Este projeto cresceu tão rápido e teve um reconhecimento cada vez maior do público e da própria classe artística, pois acabaram vendo o despertar desse novo Junior. Foi sucesso total durante três anos.

Tocávamos canções que adorávamos e eram conhecidas, mas do nosso jeito, com arranjos inusitados e misturando músicas. Isso foi o estopim para que o Junior pensasse em novos caminhos, como artista.

Infelizmente, por conta destes compromissos com uma carreira extremamente bem sucedida com a dupla, acabamos não fazendo da Soulfunk um projeto maior.



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O álbum “Certas Coisas” foi lançado em 2007 e é o seu mais recente trabalho solo. Nele, você demonstra muitas de suas influências musicais que foram moldando suas características ao longo da carreira. Você pretende lançar novos solos futuramente?



Milton Guedes

Como eu havia gravado muitas trilhas para novelas, veio do diretor musical da Globo, Mariozinho Rocha, a ideia deste disco instrumental com o catálogo das novelas da Globo. Era muito material e acabamos escolhendo canções mais atuais para o primeiro projeto que é bem eclético, mas tem uma leveza e participações muito legais.

Adoraria fazer o volume dois.



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Outro projeto muito bacana que você realiza é o "Milton Guedes Mashup". Para quem não sabe do que se trata, explique um pouco o que é o Mashup e suas principais características.



Milton Guedes

O primeiro Mashup que ouvi foi do Lulu e Dj Meme (Descobridor dos 7 Mares vs Disco Inferno).

O Mashup não é uma emenda de duas músicas e sim duas músicas sobrepostas. Usando a base musical de uma e cantando outra por cima.

Desenvolvi vários Mashups na Soulfunk que acabei levando para o meu show atual, que é o primeiro e talvez o único show de Mashups no Brasil. São misturas inusitadas que deixam o público surpreso do começo ao fim e dançando muito.

Imperdível (risos).



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Milton foi um prazer poder conversar contigo! Espero que tenha gostado. Um grande abraço e muita música para você!



Milton Guedes

Adorei poder contar parte dessa história. Um grande abraço!



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Disco de ouro recebido por Milton Guedes pelas composições no álbum "Sandy & Júnior" (2001).

Milton Guedes e Roberto Carlos, no especial do Rei.